Mercadoria de sangue
MERCADORIA DE SANGUE
Um helicóptero foi derrubado por bandidos no Rio de Janeiro. Morrerem três policiais. Em resposta o estado saiu à caça dos responsáveis e, até onde sei, já mataram cerca de 40 marginais ligados ao tráfico de drogas. Três foram presos. É um dado curioso: três detidos e quarenta abatidos. O estado não procurou deter os criminosos, julgá-los. Procurou matá-los. E assim será. Um dos chefes do tráfico está sendo caçado. Diz o estado que partiu dele a ordem para derrubar o helicóptero. A televisão, braço do estado, mostrou seu retrato de criminoso várias vezes. Está marcado para morrer. Quando ele for morto o episódio será encerrado. A vingança terá sido feita. Os policiais voltarão ao labor de fiscalizar excessos do tráfico e receber sua parte, os políticos à sua rotina de intrigas, os intelectuais a propor medidas sócio-educativas e urbanização de favelas, as ONGs a suprir gente pobre com dancinhas, teatro e música, as classes média e alta a cheirar pó e os traficantes a supri-las. O estado fala de sua inteligência policial. Rastreamento de celulares, câmeras, monitoramento de pontos de venda de drogas, treinamento de policiais e aumento de contingente. A televisão mostra o aparato tecnológico-policial que deixa telespectadores embevecidos. Alguns chefões transformam as prisões onde cumprem pena em seguro quartel de onde comandam operações. Alguns pequenos traficantes são presos, torturados. Há indulgência para com a tortura. Milhares e milhares de negros e pardos e alguns brancos mercadores de droga são mortos todos os anos pela polícia e em lutas intestinas. Os consumidores ricos aspiram e fumam em lazer e festas a mercadoria de sangue. Alguns morrem por overdose. Uns poucos, célebres, deixam de usá-la e se transformam em exemplos edificantes para a sociedade.
E todos concordamos que os bandidos devem mesmo ser tratados a bala.
Escrito por walmir às 12h26
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