A CRIANÇA ASSASSINADA
A CRIANÇA ASSASSINADA
A menina Neda, uma jovem iraniana, foi morta com o um tiro no peito quando protestava contra fraudes na eleição. Duro ver aquela criança falecendo, sangrando no asfalto, olhos revirados, a vida se apagando. Adultos treinados em matar fizeram o disparo. Ela não verá nenhuma mudança em seu país. O sonho acabou-se ali. Queria apenas lisura na apuração dos votos, outra eleição, quem sabe? As manifestações contra o suposto golpe eleitoral ao grito de "Alá é grande" não estão pedindo a derrubada da revolução islâmica estabelecida por Khomeini há 30 anos, convém lembrar agora. Não querem o fim do islamismo. Mas aparecem artigos na imprensa ocidental dizendo que alguns partidários da mesma causa estão tão irritados, que suas demandas já estão mudando da realização de novas eleições para o questionamento do próprio regime, a república islâmica. Os artigos dizem que eles já estão querendo além do que permite a lei, querem mudanças maiores. Dizem, também, que o regime não deixou dúvidas no sábado – de acordo com discurso do Aiatolá - de que qualquer protesto será confrontado com força igual, e as forças de segurança estão sob o comando firme dos linha-dura. Que o regime agora considera que precisa reprimir com mais força ou correr o risco de um caos ainda maior no país - e ambas são opções ruins. Artigos típicos de quem anseia por mortes. Pode ser também uma estratégia para impedir uso de mais força. Mas sempre fico com pé atrás quando encontro artigos assim na imprensa. Em 1979 o regime do Xá Reza Pahlavi caiu sob uma onda de protestos. Uma coisa que não esqueço e que pôs fim ao regime do xá: o exército recusou-se a atirar no próprio povo. Muitos foram mortos, mas quando a linha dura do regime do Xá ordenou a matança o exército a recusou. Foi um ato emocionante. Portanto, tenho esperanças de que os linha-dura não matem mais do que já mataram. Que as forças armadas permaneçam íntegras. A história talvez lhes sirva de alerta. O exército iraniano é querido pelo povo. Lutou bravamente contra o Iraque de Saddan armado pelos EUA. Os eventos atuais em Teerã são parecidos aos de 1979, mas ao mesmo tempo, são muito diferentes. A juventude rebelada naquela época era vista com desconfianças no ocidente, pois os Estados Unidos haviam posto o Xá no poder em 1953. Agora, a juventude que confronta as eleições presidenciais na República Islâmica tem o apoio dos EUA – não incisivo - e dos europeus, muito incisivo. É sempre a juventude confrontando as injustiças. Será que vamos assistir a uma repetição do passado? Os aiatolás fugindo do Irã como fez o rei dos reis? Não acredito. Os aiatolás nunca deixarão o Irã. A República Islâmica não cairá como caiu o regime do rei dos reis, mas talvez ela caia de outra forma, se transforme, cumprindo ritual de envelhecimento. E o Chefe Supremo, o Aiatolá, se torne uma rainha da Inglaterra. É o mais provável. Concordo com a postura do presidente Obama. Ele não confrontou o Irã com a mesma dureza dos europeus. O mesmo fez o presidente Lula. São as três forças mais poderosas do Ocidente: EUA, Brasil e Europa. É preciso haver interlocução. Ingerência maior no conflito poderia dar motivo aos linha-dura para matanças. Mas uma coisa é certa, qualquer que for a solução que os iranianos encontrarem, os conservadores da república islâmica sairão enfraquecidos. É uma ditadura? Talvez seja para nós, os ocidentais, mas carrega em si elementos fundamentais da democracia, não impõe partido único, tem eleições para presidente, debates públicos acalorados. Não é como o regime chinês, monolítico. E aos olhos do mundo – e do próprio mundo islâmico – a exigência do povo iraniano por mudanças é límpida. Fomos, no entanto, surpreendidos com a repercussão das eleições, dos debates televisionados, d calor dos discursos, dos temas abordados. Pensávamos o Irã pela cabeça de George Bush, um Irã maligno, ditatorial, castrado, submisso. E não é assim. A república islâmica que substituiu o regime do Xá fez uma revolução na educação do país. Lá, um percentual de 60% das mulheres iranianas está na universidade, embora seu testemunho ainda valha a metade do de um homem em um tribunal. Há de mudar. Sabemos que dezoito milhões de iranianos navegam na internet. Eles vão à rua e manifestam suas idéias. Isto não pode mais ser apagado e nós, ocidentais, não podemos desconhecer. Os canteiros para uma democracia plena estão prontos, talvez férteis. Há, no entanto, central, o conflito com Israel e a desconfiança que anos de tramóias e traições ocidentais plantaram no coração iraniano. Estes problemas precisam ser solucionados. Não se pode pensar que o povo iraniano – mesmo aqueles que compõem a massa de manifestantes – não teme Israel ou não teme o ocidente e os EUA que armaram o Iraque de Saddan Hussein para invadi-los. Qual país, qual povo se esqueceria disso? Milhões de iranianos foram trucidados. Gosto de pensar que a revolução islâmica esteja devorando suas próprias malignidades e que jovens como Neda, filhos dos que a fizeram, possam abrir o Irã para os iranianos e talvez para o mundo, suplantar os partidários de Ahmadnejad. Não destruí-los, suplantá-los democraticamente. Mas não se deve pensar que os conservadores e a população mais pobre que apóiam Armadnejad representem parte inexpressiva da sociedade iraniana. Não se pode pensar, também, que um outro presidente – o candidato derrotado – pense, em termos das lutas regionais, das tramóias ocidentais de modo diverso do que Armadnejad pensa sobre política de segurança. Ninguém pode acreditar que se fosse eleito o candidato Mousavi - oficialmente derrotado - no dia seguinte anunciaria o fim do programa nuclear iraniano. Não faria isso jamais. Nenhum iraniano o faria. Vejo manifestações dos falcões americanos, dos carcarás brasileiros pedindo endurecimento, condenação explícita do regime dos aiatolás, fim da república islâmica. Vejo Obama e Lula insultados por gente que não merece crédito. Por gente que clama pelas armas, pelo confronto, que anseia por matanças. Querem outras mortes como a da jovem Neda, assassinada quando protestava, aos milhares. Depois pedirão outras matanças, bombardeios, sacrifícios. Não tentam entender o país e seu povo. Melhor jovens como Neda vivos.
Escrito por walmir às 21h13
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