O IRÃ E A IRA
O IRÃ E A IRA
Tenho pé atrás com todo governo religioso. Penso que é por causa do que as religiões barbarizaram durante a história toda, mas pode ser por outros motivos. O mais graúdo deles talvez seja a irracionalidade da fé, este impulso para livrar o vivente do sumidouro inimaginável da morte, impulso que ancorou lendas e que não pode ser ensinado nem assimilado fora de sua própria bizarrice. No entanto, adoro as lendas com suas tantas aventuras e dou-lhes o crédito de contribuir para fixar comportamentos e ilustrar belos ensinamentos. Sou fã da Sarça Ardente, do gago Moisés subindo o monte fumegante para voltar com as Tábuas da Lei. Impressionam-me os Filhos de Deuses que se deixaram sacrificar pelo bem da humanidade, das Virgens que geraram filhos de deuses, dos anjos e heróis e monstros e cataclismas enviados pelos Poderes Celestiais para destruir cidades e civilizações corruptas, dos mesmos anjos e heróis enviados para socorrer os bons. Se não temos super poderes contamos com protetores extraterrestres íntegros e bons. E imaginamos – nós predadores e guerreiros desde sempre lutando pela sobrevivência – outra guerra fantástica e invisível travada entre forças benignas e malignas na qual devemos nos engajar para depois lucrarmos com a bem aventurança eterna. As lendas ajudaram a fixar regras que deram em leis e nós não damos conta de viver sem leis, pois temos de separar o Bem e o Mal, o joio e o trigo. Quando as lendas deram origem a religiões com sua bem organizada hierarquia chefiada por papas, aiatolás, rabinos e outros, constituíram-se exércitos dá fé. E nos exércitos, todos sabemos, hierarquia é tudo. Faz pouco que os católicos deixaram de mandar totalmente nos países ocidentais, mas ainda têm muito poder. O mesmo acontece com os rabinos. O Dalai Lama ainda tem bons poderes. Por conta de tudo isso sempre olhei para o mundo islâmico como se ele fosse um todo de fanáticos muçulmanos. E não é. Eu via apenas a divisão entre xiitas e sunitas. Há outras e profundas diferenças. Daí que em muitos países islâmicos os aiatolás ainda imperam, os fanáticos escondem e espancam mulheres. Noutros imperam famílias reais petroleiras que mantêm uns costumes religiosos anacrônicos para uso interno, e quando vão para os países do Grande Satã se esbaldam. Outros se pegam em amargas lutas internas e há, ainda, os que constroem suntuosos monumentos turísticos. Democracia é artigo raro. No Irã o poder supremo é exercido por um Aiatolá e por um Conselho de Guardiães. Dizem que são muito poderosos e mandam em tudo e em cada detalhe da vida do seu povo. Uma espécie de Rei com sua Câmara de Lordes, só que muito mais sinistros. Mas estou vendo agora o povo iraniano eleger seu presidente. E olho a surpresa pulando nos vídeos: o poder do presidente iraniano está muito mais evidente que o poder do Aiatolá e do Conselho de Gaurdiães. E me pergunto: pode haver uma democracia sob a forma de um estado religioso? Vai ver, pode. Estou acompanhando as eleições no Irã e dou com a população engajada, as mulheres batalhando voto nas ruas, maquiladas, bem vestidas, os grandes comícios, os debates acalorados. Todas de véu, a tradição lá, talvez obrigatória, mas o véu não é anacronismo, é trabalhado esteticamente, fica belo. E a presença dos véus, este detalhe adequado como em moda, ajuda a revelar que há um destino sendo traçado coletivamente. Ajuda a revelar que os iranianos não estão preocupados em se fechar dentro de um ovo religioso anacrônico. As mudanças saltam dos vídeos. Eles e elas estão discutindo temas que envolvem o país inteiro, sua inserção no mundo, se tal postura é boa ou ruim para a coletividade. Olhe as manchetes: UOL - 12/06/2009 - 09h50 = Alta participação de mulheres e jovens marca eleições no IrãO Globo Agências internacionais - 12/06/2009 - 12h55m = Iranianos vão em massa às urnas para decidir futuro do país; oposição declara vitória BBC BRASIL.com- 12/06/2009 = Eleitores comparecem em massa às urnas no Irã The New York Times - 12/06/2009 = Irã: uma eleição disputada e perspectivas de mudanças FINANCIAL TIMES - 12/06/2009 = Jovens iranianos pedem mudanças Economist.com - Jun 12th 2009 = Iran's election A thrilling election in Iran Outra surpresa: nenhuma das agências fala sobre o Aiatolá. Ele está na sombra. Igual a rainha da Suécia, o rei da Espanha. Posso não gostar de regime religioso, mas tenho que admitir: eles, os iranianos em maioria muçulmanos estão exercendo a democracia do modo lá deles. O ex-presidente Bush implicava demais, xingava de “não sei o que lá do mal”, a mídia ocidental fazia coro, escrachava, eu torcia o nariz pra eles, ainda torço. O presidente deles atiçava/atiça iras com os israelenses, “não teve holocausto coisa nenhuma”, fazia e faz propaganda de armas. Aí o Obama propôs: vamos parar com isso e conversar. Apoio a criação de um estado para os palestinos. E então, de repente, estou acompanhando as eleições iranianas com interesse, com surpresa. E penso que eles caminham para uma conversa construtiva com o ocidente. Esta é a sensação que tenho. E mais, vejo os aiatolás se transformando naquilo em que os outrora poderosíssimos imperadores europeus se transformaram: referências culturais.
Escrito por walmir às 15h00
[]
[envie esta mensagem]
[link]

|