E AGORA, JOSÉ?
E AGORA, JOSÉ?
José Sarney vive seus últimos momentos e o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, aquele que excomungou todos os adultos envolvidos no aborto de uma gravidez de alto risco em menor estuprada, está se aposentando. Por ROBERTO VIEIRA sobre poema de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - http://blogdojuca.blog.uol.com.br/index.html "E agora, José? A reza acabou, a presidência dançou, o povo sumiu, o escândalo esfriou, e agora, José? E agora, você? Você que tem nome, que zomba dos outros, você que excomunga, cala quem protesta, e agora, José?
Está sem respeito, está sem discurso, está sem destino, já não pode benzer, já não pode empregar, iludir já não pode, a verba esgotou, o milagre não veio, o aplauso não veio, o jetom não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?
E agora, José? Sua negra casaca, seu instante de santo, sua imortalidade, sua biblioteca, sua lavra de ouro,
seu te rno de oligarca, sua incoerência, seu trono - e agora?
Com a caneta na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no Maranhão, mas o Maranhão secou; quer ir para Roma, João Paulo não há mais. José, e agora?
Se você confessasse, se você se arrependesse, se você tentasse ser igual a toda gente, se você dormisse, se você sonhasse, se você morresse… Mas você não morre, você é eterno, José!
Sozinho entre os muros príncipe em seu palácio, só teologia, sem verdade nua para se perdoar, você é o dono do mar que fugiu a galope, você foge, José! José, pra onde?"
Escrito por walmir às 19h02
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O IRÃ E OS ESTADOS UNIDOS I
O Irã e os Estados Unidos I
por Vijay Prashad, Counterpunch - Tradução: Caia Fittipaldi - http://www.viomundo.com.br/ Ninguém mais pode dizer, hoje, que a sociedade iraniana é submissa ao autoritarismo. A robusta manifestação de rua e no Parlamento e, de fato, também no círculo das eminências pardas, sobretudo dos mulás de turbante, tanto do Conselho de Guardiões quanto do Conselho de Discernimento do Sistema (belo nome!), põem por terra a ideia de que as forças sociais no Irã vivam amordaçadas sob pressão ou censura. Vê-se que o Estado iraiano não é capaz de absorver todas as forças e potências da sociedade iraniana e está sendo forçado a absorvê-las (nessa semana, Máhmude Ahmadinejad foi forçado a instaurar inquérito judicial para investigar o assassinato de Neha Agha-Soltan). É preciso enterrar completamente todas as comparações entre o Irã contemporâneo e a Alemanha nazista (há menos de dois meses, um deputado israelense, Silvan Shalom, fez exatamente essa comparação, sempre repetida pelos neoconservadores com cara-de-mau). Também já não assustam ninguém os discursos dogmáticos dos progressistas nos EUA, metade dos quais alinhados com a "Revolução Verde", metade alinhados com Ahmadinejad. Ontem, ninguém sabia coisa alguma sobre a política iraniana; hoje, são especialistas com opinião formada e inabalável. Apoiar ideias que não se entendem nada tem a ver com solidariedade internacionalista. O Irã é uma sociedade dividida, com forças sociais que se enfrentam num debate que tem raízes antigas. E dado que os dois lados (assumindo que sejam apenas dois) estão praticamente empatados em número de adeptos, absolutamente não se trata de uma minoria indefesa que esteja sendo cruelmente perseguida (única situação ante a qual alguém poderia sentir-se tão rapidamente ultrajado). Está certo exigir que o Estado não use a força contra quem proteste nas ruas, e que haja diálogo político para construir meios e modos para enfrentar o que parece ser fraude eleitoral. Mas nada disso implica que se ponham tantos a fazer as mais inacreditáveis exigências maximalistas (como a extinção da República Islâmica) que não são exigências das ruas de Teerã e exigências que, no curto prazo, nenhuma rua de Teerã pensará em fazer. Como as coisas chegaram até aqui As tradições democráticas do Irã tem raízes que vêm do século 19, embora a dinâmica mais recente tenha tido início em 1905. Frustrada pela obscena ostentação da dinastia Qajar e inspirada na Revolução Russa de 1905, uma aliança entre a emergente classe média urbana, o clero e os trabalhadores do petróleo do norte do pais surgiu, em dezembro de 1905, o que se pode descrever como uma unidade fraturada. Teerã levantou-se contra o cruel vizir Ayn al-Dowleh (que "ferrou um criminoso, como cavalo, mandou por-lhe ferraduras, os pregos enfiados na carne nua dos calcanhares do homem") e mandou para a estratosfera os preços do açúcar. Uma segunda greve, em julho de 1906, forçou o xá a demitir o Vizir e a escrever uma constituição. O Xá Mozaffar ad-Din seguiu o exemplo dos aristocratas russos e prometeu uma constituição. Essa concessão só foi feita porque os protestos já haviam chegado ao exército e ao clero. Enquanto as elites formavam seus majlis, seus deputados à assembleia legislativa, o povo formava anjomans, os sovietes da Pérsia. Essas "assembleias independentes", escreveu o embaixador britânico Sir Cecil Spring-Rice aos seus melhores em Londres, cultivaram "um espírito de resistência à opressão e, mesmo, a qualquer tipo de autoridade. O sentimento de independência em sentido o mais amplo, de nacionalidade, a consciência do direito de resistir à opressão e de dirigir os próprios negócios disseminam-se rapidamente entre o povo". Esse levante foi imediatamente traído pelos ingleses e russos, cuja entente de 1907 permitiu que os russos invadissem o país (como dizia-se em Moscou: "a Pérsia não é país estrangeiro, assim como a galinha não é, de fato, um pássaro"). O povo não cedeu sem luta: a classe trabalhadora e os camponeses mais pobres formaram um feda’iyan [associação de 'devotos'], e tomaram o úmido Gilan (na mesma região e inspirada pela mesma dinâmica, irrompeu aí o movimento "Jangal [floresta], sob a liderança do extraordinário Mirza Kuchak Khan, que criou a República Socialista de Gilan, de vida curta, de 1920-21). As mesmas forças sociais liberadas pelo movimento dos majlis serviram como fundamento para que as mulheres passassem a exigir plenos direitos como força de trabalho e na sociedade (desde 1910, as mulheres Irãianas frequentam livremente a universidade; à altura de 1930, já era fato social normal que as mulheres recebessem educação universitária e gozassem de todos os direitos de completa mobilidade social). Das franjas da invasão russa e da carcaça dos anjomans, emergiu o líder cossaco persa Reza Khan, que abriu caminho até o Trono do Pavão, onde ele e seu filho permaneceram sentados até 1979. Reza Khan viveu como que escravizado às tecnologias dos poderes imperiais, que importava em grandes quantidades e com alto custo para o Tesouro (seguindo o exemplo do Ataturk turco). Seu filho seguiria esses gastos e essa fé, dependendo cada vez mais de armamento importado como meio para modernizar o Irã, mas mantendo a população em geral em condições da mais abjeta miséria (em 1978, 60% dos iranianos eram analfabetos). Biografia em geral muito simpática ao biografado, o primeiro Xá da dinastia Pahlavi, nem assim conseguiu omitir certa dose de realidade: "a riqueza do país concentra-se em Teerã, quase completamente nas mãos de comerciantes, fornecedores do Estado, mercadores e indivíduos associados aos monopólios. A industrialização em nada beneficiou os trabalhadores da indústria. Salários baixos e uma rudimentar legislação trabalhista de 1932, praticamente nada fizeram para proteger os trabalhadores contra a exploração." Em 1941, Reza Khan cedeu o trono ao seu filho. Durante a II Guerra Mundial, o Irã tornou-se fornecedor imprescindível de petróleo para os exércitos Aliados; depois da guerra, para os Estados atlânticos. A empresa Anglo-iraniana de Petróleo, muito mais inglesa que Irãiana, ficava com a maior parte dos lucros e pressionou, talvez bem mais do que deveria, uma força de trabalho que tinha longa tradição de organização e militância. Nessa empresa, o partido Tudeh (partido comunista) construiria sua base; foi também contra esses trabalhadores que as forças Aliadas testaram suas armas (o comandante norte-americano que foi enviado então para modernizar o exército iraniano é o pai do Norman Schwarzkopf que, em 1991, comandou as forças da coalizão internacional na chamada "Tempestade do Deserto", na Guerra do Golfo, para depor Saddam Hussein.). Por baixo do Trono do Pavão, reuniam-se várias forças sociais para exigir a renegociação dos contratos de petróleo. Mobilizado pelo descontentamento popular contra o regime, a Frente Nacional de Mohammad Mosaddeq lutou pela nacionalização da indústria do petróleo e por uma política agrária que obrigasse os latifundiários a distribuir 1/5 de seus lucros (metade dos quais para os camponeses e metade a ser depositada em bancos rurais que foram então criados). Mosaddeq derrotou "o velho bloco de granito", a elite que crescera habituada ao usufruto exclusivo de todos seus tesouros. Mossaddeq tentou controlar o exército, pilar do poder dos Pahlavi. Por causa desse ultraje, os Estados atlânticos armaram e executaram um golpe que o derrubou. Após a derrubada de Mossaddeq o Xá implantou uma estrutura autoritária que faria seu pai corar de inveja. Em 1957, criou a SAVAK, sigla que até hoje é sinônimo de terror. Os serviços secretos dos EUA e Israel, depois, apenas a mantiveram sempre atualizada, e a SAVAK nada ficou a dever ao cruel Ayn al-Dowleh - aquele que "ferrou" um homem feito cavalo. Os lucros do petróleo e a "ajuda" dos países atlânticos deram meios ao Xá para que subornasse outros setores da população, mas os petrodólares apenas adiaram o inevitável que viria, como veio. Os partidos criados pelo Xá, como fachada de atividade política (partidos Melliyun e Mardom) não podiam conter, como não contiveram, os desejos da população. Um movimento frouxo, praticamente sem pegada, chamado "Revolução Branca", em 1963, conseguiu mobilizar o clero, tradicionalmente omisso e conformista, para o campo da revolução.
Escrito por walmir às 11h57
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O Irã e os Estados Unidos II
O Irã e os Estados Unidos II
por Vijay Prashad, Counterpunch - Tradução: Caia Fittipaldi - http://www.viomundo.com.br/ O Aiatolá Khomeini assumiu a liderança do campo contrário às reformas, nem tanto porque jamais concordaria com aquelas reformas (direito de voto para as mulheres, por exemplo), mas porque dizia que um regime ilegal não se poderia reformar ele mesmo. O Xá fez aprovar a Lei de Proteção à Família, em 1967, em parte pressionado pelos liberais, mas também para pintar os mulás como reacionários favoráveis à poligamia e contrários ao divórcio (o argumento do Xá era falso; as mulheres tiveram direito de votar desde a primeira eleição da República Islâmica em abril de 1979). O historiador Nikki Keddie tem razão ao afirmar que "para as mulheres das classes mais baixas pouca coisa mudou. Sempre tiveram os piores salários e raramente souberam que tinham os direitos que tinham.” Mesmo assim, o solo produzido pelas reformas do Xá (e por mais ilegal que fosse o regime) fez germinar um resultado contraditório: as mulheres descobriram que tinham direitos, gostaram da ideia e a ideia dos direitos das mulheres firmou-se. As dificuldades econômicas dos anos 1970 foram aumentadas pelas táticas deflacionárias do primeiro-ministro Jamshid Amuzegar; e dia 25/11/1977 abriu-se novo período na vida do Irã: naquele dia, 5.000 estudantes entraram em luta contra a polícia; e os protestos cresceram todos os dias, até setembro de 1978, quando o Xá convidou os militares a participar do governo. Aos protestos esporádicos, juntaram-se as greves dos trabalhadores nos campos de petróleo – movimento significativo, que dividiu a repressão, até então ocupada exclusivamente com a agitação de rua. Não se pode esquecer que os manifestantes civis, que se levantaram contra o Xá, conheceram toda a violência de que era capaz a maquinaria de morte da SAVAK: na revolução iraniana de 1979 morreram 20 mil pessoas. A Revolução Iraniana, outra vez, mobilizou todas as classes, inclusive o setor crucial dos trabalhadores do petróleo e das fábricas. Há poucos traços islâmicos naquelas lutas, porque foram lutas nascidas de aspirações nacionalistas e alimentadas pelo ódio que o Xá inspirava à população. Quando a vitória chegou ao alcance da mão, Khomeini e seus quadros assumiram o controle da dinâmica política. Assim se fez a República Islâmica. Como a esquerda reclamou, "a ditadura da coroa foi substituída pela ditadura do turbante". A esquerda foi suprimida (Ahmadinejad participava do grupo "Ação para Fortalecer a Unidade", depois do partido Mojahedin-e Khalq, partido islâmico socialista e popular; mais tarde, depois de um breve intervalo, do partido Tudeh, o principal partido comunista). “Nosso inimigo não é só o Xá Mohammed Reza Pahlavi,” Khomeini dizia. “Nosso inimigo são todos os que preguem diretivas que nos separem do Islã. São nossos inimigos todos os que usem as palavras 'democracia' e 'república'". Pois foram precisamente essas tradições de democracia e republicanismo que re-emergiram no Irã depois de 1979, evidentemente nos grupos dissidentes, sim, mas também no seio da elite dos clérigos. Surgiram divisões entre "reformadores" e "conservadores" que sempre acompanharam a história das eleições no Irã; nos anos mais recentes, esses termos ganharam também algumas conotações de classe. Os "mulás milionários", como classificou-os há alguns anos Paul Klebnikov, governaram o Irã mais ou menos como os oligarcas russos governaram a Rússia depois de 1991. Ali Rafsanjani, ex-presidente e hoje chefe do Conselho de Discernimento do Sistema, tem sido apresentado como reformador. Sua família é das mais ricas do Irã: um de seus irmãos é proprietário da maior mina de cobre do país; outro, dirige a rede estatal de televisão; um primo domina o comércio nacional de pistache; e seus filhos controlam partes cruciais da indústria do petróleo e da construção civil. Rafsanjani fala pelos que habitam o distrito de Elahiyeh, ao norte de Teerã (ShemIrã) e dirigem seus carrões pela Avenida Fereshteh. Para esses, liberdade significa o fim dos rituais sociais dos conservadores, mas também a privatização da economia. Mas também há entre os reformadores um grupo de ativistas que combatem a República Islâmica e exigem igualdade para as mulheres, direitos humanos, direitos trabalhistas, direito à livre manifestação de opiniões – em outras palavras, que fazem os discursos da esquerda europeia. É uma estranha aliança, entre os que querem liberdade para seus anseios hedonistas e os que querem liberdade para livrarem-se da autocracia dos mulás. Entre esses últimos, há líderes importantes, feministas como Mehrangiz Kar e Shirin Ebadi, jornalistas como Akbar Ganji, e militantes da organização dos trabalhadores, como Mansour Osanlou, líder do Sindicato dos Trabalhadores de Teerã e Subúrbios, e Mahoud Salehi, líder da Associação dos Trabalhadores da Indústria do Pão. São aliados dos "reformadores" nas lutas pelos direitos sociais, mas nem tanto, na agenda econômica.
Escrito por walmir às 11h56
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Irã e os Estados Unidos III
O Irã e os Estados Unidos III
por Vijay Prashad, Counterpunch - Tradução: Caia Fittipaldi - http://www.viomundo.com.br/ A campanha eleitoral de Ahmadinejad em 2005 deu voz a grupos sociais que jamais antes haviam sido ouvidos, aos habitantes das favelas e aos trabalhadores rurais. Falou por eles, defendeu-os e sabe bem o que fez e faz. Num evento público em outubro de 2006, Ahmadinejad introduziu a ideia da "Quota Social": o Estado distribuiria quotas de algumas empresas entre os 4,6 milhões de iranianos mais pobres, que automaticamente seriam convertidos em sócios-acionistas da riqueza da nação. A crescente desigualdade social, a consciência de que os trabalhadores haviam sido os mais sacrificados durante a guerra Irã-Iraque nos anos 80 e a falta de alternativas seculares devem ter tido papel importante nesse processo, e na adesão dos mais pobres a candidatos como Ahmadinejad, que mostra simpatia pessoal pelos mais pobres, tanto quanto mostra, sem meias palavras seu desprezo pelos nouveau riches. Esse tipo de populismo parece atrair a juventude das áreas rurais mais pobres e os habitantes das favelas nas grandes cidades (44% da população Irãiana urbana vive em favelas). As políticas de Ahmadinejad são idiossincráticas, são facilitadas pela abundância de dinheiro gerado pelo petróleo (ano passado, os preços foram altos), mas, ao mesmo tempo, são minadas pelo recurso fácil ao anti-americanismo. A Washington de Bush facilitou o trabalho de divulgar os dogmas que a República Islâmica sempre têm estocados, aos quais Ahmadinejad recorre quando lhe faltam argumentos econômicos. Com o preço do petróleo em baixa, e depois de Bush ter sido derrotado por Obama, com inflação em alta, a fé que as massas tinham em Ahmadinejad fraquejou (embora, sim, as massas ainda o apóiem). Mas as circunstâncias de momento deram impulso ao discurso dos "reformadores", que continuam inteiramente dedicados a impedir que Ahmadinejad volte à presidência. Nada garante nem sugere que tenha havido alguma fraude eleitoral, mas a fraude pouco alterará no movimento que houve dentro da própria sociedade iraniana. A esquerda iraniana atravessa esse fosso que separa "reformadores" e "conservadores"; de fato, há nichos de esquerda dos dois lados do fosso. Por isso, também, é difícil adotar o discurso das elites de Elahiyeh, tanto quanto também é difícil aliar-se ao campo de Ahmadinejad. Assim sendo... O que fazer? Quando a revolução iraniana de 1978-79 começou a esquentar, o General Robert Huyser foi em missão a Teerã, como representante do governo dos EUA. Em telegrama de janeiro de 1979, uma semana depois de o Xá ter fugido para o Cairo, Huyser escreveu: "temos de cuidar de imediata e direta ocupação militar". Preveniu que, se Khomeini voltasse ao Irã, "vamos todos para o inferno, num cestinho." O governo Carter preparou-se para o golpe (mandou um navio-tanque de combustível, para abastecer os militares). Mas as coisas não saíram como planejadas. Os EUA não são ator confiável na política doméstica iraniana, nem no passado nem no futuro (embora, como Esam al-Amin destacou, Washington ainda não tenha desistido de tentar). As contradições sociais do Irã estão outra vez em erupção e conflito. Não nos ajuda agora, agarrarmo-nos à bandeira da intervenção, ou jogarmos nossa solidariedade e nosso apoio sobre um ou outro campo, na atual situação. A ação de massa no Irã já é instituição muito bem desenvolvida. Em 1953, os EUA ainda conseguiram promover um golpe no Irã. Em 1979, a ação de massa impediu o segundo golpe. A ação de massa é como um instinto da população iraniana. A melhor solidariedade que a esquerda possa dar, doravante, terá de ser analítica, não emocional. Quanto mais sóbrias forem as análises, mais conseguiremos ver os movimentos fluidos da política, e mais entenderemos os motivos pelos quais é tão difícil encontrar a posição da esquerda. As coisas são mais fáceis no caso de Honduras, não apenas porque todos os generais hondurenhos são treinados pelos EUA, no Forte Benning, mas, também, porque é bem evidente que o Departamento de Estado talvez decida bancar o golpe, para enviar um recado ao 'bolivarianismo' da América do Sul e Central. Aqui, o papel da esquerda é mais claro: exigir que se ponha fim a qualquer interferência na América Central e o fechamento da School of the Americas. Aqui, a tarefa da esquerda é mais simples, porque, afinal, se trata de defender o governo mais progressista que Honduras conheceu em décadas. No caso de Honduras, trata-se de genuína solidariedade, tanto quanto nossos músculos possam ajudar o lado certo da história. Camaradas, mãos à obra por Honduras. * Vijay Prashad é professor da cátedra George e Martha Kellner de História do Sul da Ásia e diretor de Estudos Internacionais no Trinity College, Hartford. Seu livro mais recente é The Darker Nations: A People's History of the Third World, New York: The New Press, 2007. O artigo original, em inglês, pode ser lido aqui.
Escrito por walmir às 11h54
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A CRISE DO SENADO E OS GOVERNADORES CALADO
A CRISE DO SENADO E OS GOVERNADORES CALADOS
Sarney sai ou fica? Tanto faz. É um velho cevado no patrimonialismo que herdou e passou adiante. Iguais a ele, a maioria dos senadores. E o que são senadores? São, teoricamente, representantes de cada estado, eleitos pelo povo de cada estado. Oitenta e um cabras de muito mando. Em geral ligados aos seus governadores. Muito raro um governador não eleger também o senador apoiado por ele. Aécio, por exemplo, elegeu aqui um velhinho que muita gente julgava falecido. O velhinho estava lá embaixo nas primeiras prévias. Aécio o ressuscitou. E hoje o Senado da República está metido nas miseriazinhas de sempre, só que agora, em tempos de internet, o público se encheu desses representantes do estado que representam a si mesmos, às suas famílias, aos amigos políticos; desses velhotes da "coisa nossa". Alguns nem tão velhos, mas... E olha-os com desprezo. São desprezíveis mesmo em sua maioria. Maioria? Bem, todos têm seu lado desprezível por lá. Simon está aí pra não me deixar mentir. Nem o Cristóvão Buarque, quem diria? Pois é. Até aqueles ditos "reservas morais" têm lá suas fontezinhas de recurso no alheio, acobertam falcatruas, ficam com uns dinheirinhos que aparecem espertos daqui e dali. Descobertos dizem que não sabiam, fazem uns discursozinhos indignados, prometem devolver a bufunfa, botam a culpa em burocratas. E sua produção é ridícula. Formassem o conselho de uma empresa já estariam todos na rua. Dá pena o Congresso da República. Mas voltando: e os governadores? Todos caladinhos. Espertamente calados. Todos, todos, todos. A crise do Senado é também a crise do governadores que agora se fingem de mortos para evitar respingos do velho estrume. E todos estão torcendo muito para que uns diretores sejam afastados - pensam num bom número deles. Algo que dê impressão de que houve mesmo uma reforma, que se moralizou. Sonham até que algum senador seja punido, afastado. Não o senador eleito por eles, claro.
Escrito por walmir às 21h33
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GILMAR TEM QUE SER PROCESSADO
GILMAR TEM QUE SER PROCESSADO
Por Luis Nassif O sistema jurídico do país está suficientemente maduro e civilizado para que não haja intocáveis? O Brasil pode se perfilar ao lado das maiores democracias do mundo e se considerar um país em que a Justiça não seleciona os alvos de processos? Então não tem como poupar o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, do crime de denunciação caluniosa, no caso dos falsos grampos, trama da qual participou acusando a ABIN. Sem provas sequer de que o crime havia sido cometido, sem nenhuma evidência sobre a autoria dos grampos, Gilmar acusou expressamente funcionários públicos de autoria, comprometeu investigações contra acusados de crimes maiores. Agora, que não se apurou um indício sequer da exstência do grampo, pergunto: a Justiça vai fingir que nada ocorreu? O fato de ser presidente do STF agrava o provável crime cometido. Não poderá alegar ignorância sobre pressupostos jurídicos básicos, como a presunção da inocência, o ônus da prova para quem acusa. Gilmar atropelou princípios básicos de direito. A Justiça brasileira vai aturar imperadores intocáveis? Seus colegas de Supremo vão permitir essa mancha na história da instituição? Ou chegou a hora de mostrar que a Justiça brasileira é suficientemente madura, inclusive para cortar na própria carne. http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/
Escrito por walmir às 12h37
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Blog do Sakamoto E quando achei que havíamos chegado ao fundo do poço em alguns assuntos, como a exploração sexual de crianças e adolescentes, eis que descubro que o poço não tem fundo. O Superior Tribunal de Justiça disse, ontem, que não há exploração sexual contra uma criança ou adolescente quando o cliente é ocasional. De acordo com seu site, o STJ manteve decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul que rejeitou acusação de exploração sexual de menores por entender que cliente ou usuário de serviço oferecido por prostituta não se enquadra em crimes contra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O Ministério Público está recorrendo. Vamos aos fatos: dois réus contrataram serviços sexuais de três garotas de programa que estavam em um ponto de ônibus, mediante o pagamento de R$ 80,00 para duas adolescentes e R$ 60,00 para uma outra. O programa foi realizado em um motel. O TJMS absolveu os réus do crime de exploração sexual de menores por considerar que as adolescentes já eram prostitutas. E ressaltou que haveria responsabilidade grave caso fossem eles quem tivesse iniciado as atividades de prostituição das vítimas. Seguindo o relator do caso no STJ, ministro Arnaldo Esteves Lima, a Quinta Turma do STJ entendeu que o crime previsto no ECA (submeter criança ou adolescente à prostituição ou à exploração sexual) não abrange a figura do cliente ocasional diante da ausência de “exploração sexual” nos termos da definição legal. Ganhou a hipótese sustentada por Lima de que quem contrata adolescente já entregue à prostituição para a prática de “conjunção carnal” não pode ser enquadrado. Mas os réus não saíram impunes. Não, longe disso! Eles vão responder por terem tirado fotografias pornográficas das meninas… Afinal de contas, não somos um país pedófilo, machista, racista e com preconceito de classe. Nossa Justiça está aí para garantir que os direitos fundamentais das populações mais fragilizadas não sejam negados. Alguns vão dizer que é uma questão técnica, de interpretação - como se o conhecimento da realidade e a subjetividade não influenciassem nessas decisões. Enfim, pimenta nos olhos das filhas dos outros é refresco.
Escrito por walmir às 12h33
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IRÃ - A MOÇA ASSASSINADA
IRÃ - A MOÇA ASSASSINADA


Escrito por walmir às 12h22
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A CRIANÇA ASSASSINADA
A CRIANÇA ASSASSINADA
A menina Neda, uma jovem iraniana, foi morta com o um tiro no peito quando protestava contra fraudes na eleição. Duro ver aquela criança falecendo, sangrando no asfalto, olhos revirados, a vida se apagando. Adultos treinados em matar fizeram o disparo. Ela não verá nenhuma mudança em seu país. O sonho acabou-se ali. Queria apenas lisura na apuração dos votos, outra eleição, quem sabe? As manifestações contra o suposto golpe eleitoral ao grito de "Alá é grande" não estão pedindo a derrubada da revolução islâmica estabelecida por Khomeini há 30 anos, convém lembrar agora. Não querem o fim do islamismo. Mas aparecem artigos na imprensa ocidental dizendo que alguns partidários da mesma causa estão tão irritados, que suas demandas já estão mudando da realização de novas eleições para o questionamento do próprio regime, a república islâmica. Os artigos dizem que eles já estão querendo além do que permite a lei, querem mudanças maiores. Dizem, também, que o regime não deixou dúvidas no sábado – de acordo com discurso do Aiatolá - de que qualquer protesto será confrontado com força igual, e as forças de segurança estão sob o comando firme dos linha-dura. Que o regime agora considera que precisa reprimir com mais força ou correr o risco de um caos ainda maior no país - e ambas são opções ruins. Artigos típicos de quem anseia por mortes. Pode ser também uma estratégia para impedir uso de mais força. Mas sempre fico com pé atrás quando encontro artigos assim na imprensa. Em 1979 o regime do Xá Reza Pahlavi caiu sob uma onda de protestos. Uma coisa que não esqueço e que pôs fim ao regime do xá: o exército recusou-se a atirar no próprio povo. Muitos foram mortos, mas quando a linha dura do regime do Xá ordenou a matança o exército a recusou. Foi um ato emocionante. Portanto, tenho esperanças de que os linha-dura não matem mais do que já mataram. Que as forças armadas permaneçam íntegras. A história talvez lhes sirva de alerta. O exército iraniano é querido pelo povo. Lutou bravamente contra o Iraque de Saddan armado pelos EUA. Os eventos atuais em Teerã são parecidos aos de 1979, mas ao mesmo tempo, são muito diferentes. A juventude rebelada naquela época era vista com desconfianças no ocidente, pois os Estados Unidos haviam posto o Xá no poder em 1953. Agora, a juventude que confronta as eleições presidenciais na República Islâmica tem o apoio dos EUA – não incisivo - e dos europeus, muito incisivo. É sempre a juventude confrontando as injustiças. Será que vamos assistir a uma repetição do passado? Os aiatolás fugindo do Irã como fez o rei dos reis? Não acredito. Os aiatolás nunca deixarão o Irã. A República Islâmica não cairá como caiu o regime do rei dos reis, mas talvez ela caia de outra forma, se transforme, cumprindo ritual de envelhecimento. E o Chefe Supremo, o Aiatolá, se torne uma rainha da Inglaterra. É o mais provável. Concordo com a postura do presidente Obama. Ele não confrontou o Irã com a mesma dureza dos europeus. O mesmo fez o presidente Lula. São as três forças mais poderosas do Ocidente: EUA, Brasil e Europa. É preciso haver interlocução. Ingerência maior no conflito poderia dar motivo aos linha-dura para matanças. Mas uma coisa é certa, qualquer que for a solução que os iranianos encontrarem, os conservadores da república islâmica sairão enfraquecidos. É uma ditadura? Talvez seja para nós, os ocidentais, mas carrega em si elementos fundamentais da democracia, não impõe partido único, tem eleições para presidente, debates públicos acalorados. Não é como o regime chinês, monolítico. E aos olhos do mundo – e do próprio mundo islâmico – a exigência do povo iraniano por mudanças é límpida. Fomos, no entanto, surpreendidos com a repercussão das eleições, dos debates televisionados, d calor dos discursos, dos temas abordados. Pensávamos o Irã pela cabeça de George Bush, um Irã maligno, ditatorial, castrado, submisso. E não é assim. A república islâmica que substituiu o regime do Xá fez uma revolução na educação do país. Lá, um percentual de 60% das mulheres iranianas está na universidade, embora seu testemunho ainda valha a metade do de um homem em um tribunal. Há de mudar. Sabemos que dezoito milhões de iranianos navegam na internet. Eles vão à rua e manifestam suas idéias. Isto não pode mais ser apagado e nós, ocidentais, não podemos desconhecer. Os canteiros para uma democracia plena estão prontos, talvez férteis. Há, no entanto, central, o conflito com Israel e a desconfiança que anos de tramóias e traições ocidentais plantaram no coração iraniano. Estes problemas precisam ser solucionados. Não se pode pensar que o povo iraniano – mesmo aqueles que compõem a massa de manifestantes – não teme Israel ou não teme o ocidente e os EUA que armaram o Iraque de Saddan Hussein para invadi-los. Qual país, qual povo se esqueceria disso? Milhões de iranianos foram trucidados. Gosto de pensar que a revolução islâmica esteja devorando suas próprias malignidades e que jovens como Neda, filhos dos que a fizeram, possam abrir o Irã para os iranianos e talvez para o mundo, suplantar os partidários de Ahmadnejad. Não destruí-los, suplantá-los democraticamente. Mas não se deve pensar que os conservadores e a população mais pobre que apóiam Armadnejad representem parte inexpressiva da sociedade iraniana. Não se pode pensar, também, que um outro presidente – o candidato derrotado – pense, em termos das lutas regionais, das tramóias ocidentais de modo diverso do que Armadnejad pensa sobre política de segurança. Ninguém pode acreditar que se fosse eleito o candidato Mousavi - oficialmente derrotado - no dia seguinte anunciaria o fim do programa nuclear iraniano. Não faria isso jamais. Nenhum iraniano o faria. Vejo manifestações dos falcões americanos, dos carcarás brasileiros pedindo endurecimento, condenação explícita do regime dos aiatolás, fim da república islâmica. Vejo Obama e Lula insultados por gente que não merece crédito. Por gente que clama pelas armas, pelo confronto, que anseia por matanças. Querem outras mortes como a da jovem Neda, assassinada quando protestava, aos milhares. Depois pedirão outras matanças, bombardeios, sacrifícios. Não tentam entender o país e seu povo. Melhor jovens como Neda vivos.
Escrito por walmir às 21h13
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O IRÃ E A IRA
O IRÃ E A IRA
Tenho pé atrás com todo governo religioso. Penso que é por causa do que as religiões barbarizaram durante a história toda, mas pode ser por outros motivos. O mais graúdo deles talvez seja a irracionalidade da fé, este impulso para livrar o vivente do sumidouro inimaginável da morte, impulso que ancorou lendas e que não pode ser ensinado nem assimilado fora de sua própria bizarrice. No entanto, adoro as lendas com suas tantas aventuras e dou-lhes o crédito de contribuir para fixar comportamentos e ilustrar belos ensinamentos. Sou fã da Sarça Ardente, do gago Moisés subindo o monte fumegante para voltar com as Tábuas da Lei. Impressionam-me os Filhos de Deuses que se deixaram sacrificar pelo bem da humanidade, das Virgens que geraram filhos de deuses, dos anjos e heróis e monstros e cataclismas enviados pelos Poderes Celestiais para destruir cidades e civilizações corruptas, dos mesmos anjos e heróis enviados para socorrer os bons. Se não temos super poderes contamos com protetores extraterrestres íntegros e bons. E imaginamos – nós predadores e guerreiros desde sempre lutando pela sobrevivência – outra guerra fantástica e invisível travada entre forças benignas e malignas na qual devemos nos engajar para depois lucrarmos com a bem aventurança eterna. As lendas ajudaram a fixar regras que deram em leis e nós não damos conta de viver sem leis, pois temos de separar o Bem e o Mal, o joio e o trigo. Quando as lendas deram origem a religiões com sua bem organizada hierarquia chefiada por papas, aiatolás, rabinos e outros, constituíram-se exércitos dá fé. E nos exércitos, todos sabemos, hierarquia é tudo. Faz pouco que os católicos deixaram de mandar totalmente nos países ocidentais, mas ainda têm muito poder. O mesmo acontece com os rabinos. O Dalai Lama ainda tem bons poderes. Por conta de tudo isso sempre olhei para o mundo islâmico como se ele fosse um todo de fanáticos muçulmanos. E não é. Eu via apenas a divisão entre xiitas e sunitas. Há outras e profundas diferenças. Daí que em muitos países islâmicos os aiatolás ainda imperam, os fanáticos escondem e espancam mulheres. Noutros imperam famílias reais petroleiras que mantêm uns costumes religiosos anacrônicos para uso interno, e quando vão para os países do Grande Satã se esbaldam. Outros se pegam em amargas lutas internas e há, ainda, os que constroem suntuosos monumentos turísticos. Democracia é artigo raro. No Irã o poder supremo é exercido por um Aiatolá e por um Conselho de Guardiães. Dizem que são muito poderosos e mandam em tudo e em cada detalhe da vida do seu povo. Uma espécie de Rei com sua Câmara de Lordes, só que muito mais sinistros. Mas estou vendo agora o povo iraniano eleger seu presidente. E olho a surpresa pulando nos vídeos: o poder do presidente iraniano está muito mais evidente que o poder do Aiatolá e do Conselho de Gaurdiães. E me pergunto: pode haver uma democracia sob a forma de um estado religioso? Vai ver, pode. Estou acompanhando as eleições no Irã e dou com a população engajada, as mulheres batalhando voto nas ruas, maquiladas, bem vestidas, os grandes comícios, os debates acalorados. Todas de véu, a tradição lá, talvez obrigatória, mas o véu não é anacronismo, é trabalhado esteticamente, fica belo. E a presença dos véus, este detalhe adequado como em moda, ajuda a revelar que há um destino sendo traçado coletivamente. Ajuda a revelar que os iranianos não estão preocupados em se fechar dentro de um ovo religioso anacrônico. As mudanças saltam dos vídeos. Eles e elas estão discutindo temas que envolvem o país inteiro, sua inserção no mundo, se tal postura é boa ou ruim para a coletividade. Olhe as manchetes: UOL - 12/06/2009 - 09h50 = Alta participação de mulheres e jovens marca eleições no IrãO Globo Agências internacionais - 12/06/2009 - 12h55m = Iranianos vão em massa às urnas para decidir futuro do país; oposição declara vitória BBC BRASIL.com- 12/06/2009 = Eleitores comparecem em massa às urnas no Irã The New York Times - 12/06/2009 = Irã: uma eleição disputada e perspectivas de mudanças FINANCIAL TIMES - 12/06/2009 = Jovens iranianos pedem mudanças Economist.com - Jun 12th 2009 = Iran's election A thrilling election in Iran Outra surpresa: nenhuma das agências fala sobre o Aiatolá. Ele está na sombra. Igual a rainha da Suécia, o rei da Espanha. Posso não gostar de regime religioso, mas tenho que admitir: eles, os iranianos em maioria muçulmanos estão exercendo a democracia do modo lá deles. O ex-presidente Bush implicava demais, xingava de “não sei o que lá do mal”, a mídia ocidental fazia coro, escrachava, eu torcia o nariz pra eles, ainda torço. O presidente deles atiçava/atiça iras com os israelenses, “não teve holocausto coisa nenhuma”, fazia e faz propaganda de armas. Aí o Obama propôs: vamos parar com isso e conversar. Apoio a criação de um estado para os palestinos. E então, de repente, estou acompanhando as eleições iranianas com interesse, com surpresa. E penso que eles caminham para uma conversa construtiva com o ocidente. Esta é a sensação que tenho. E mais, vejo os aiatolás se transformando naquilo em que os outrora poderosíssimos imperadores europeus se transformaram: referências culturais.
Escrito por walmir às 15h00
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O BAIXO CLERO
O BAIXO CLERO Rapaz, me dá pena quando há consenso de xingamento pra cima de um deputado do baixo clero. Adoro o pessoal do baixo clero. Adoro os discursos deles. Ligo, vejo, dou risada. E entendo eles. Eles e os seus discursos e os seus atos. Vai que o Roberto Da Matta, antropólogo afamado, escreveu no jornal Globo esculachando com o cabra que falou: “tou me lixando para a opinião pública.” Comparou ele com um professor que se lixasse para os seus alunos ou com um médico que se lixasse para os seus pacientes. Discordei. Eu, apreciador de todas as burradas, jequices e malandragens desses deputadozinhos quase anônimos, entendo que ele entende assim: "Opinião Pública é aquela dos jornais e das tvs e do povo-cabeça. A Opinião que me interessa é do pessoal da minha base." A base é uma paroquiazinha onde ele convive com umas remelas interioranas espalhadas em alguns municípios, bairros e distritos, se ajusta com um e outro prefeitinho, com uns vereadores e deputados estaduais, se liga a pastores ou padres, atende umas creches, faz discurso numa rádio que ninguém a não ser o povo daquela cidade ouviu falar, consegue encascalhar uma estradinha, doar uma kombi para uma associação, quebra galho em defesa de alguns comerciantes, fazendeirões e fazenderinhos, abre um posto de saúde, uma agência da Caixa ou posto do BB, ajuda numa obras, num rodeio, apresenta rapazes e moças para alguma possibilidade de emprego, faz lobbie numa empresa para captar recursos para algum projeto municipal seja de grupos culturais, ambientais, assistenciais, leva vereadores e prefeitos para um seminário, e um tanto de outras miudezas, mistura bondade e sacanagem. Aí eles chegam no Congresso e a opinião publicada diz que são obrigados a pensar em projetos nacionais, ajustes internacionais, LDOs, aprovação de medidas do governo, mais isso e aquilo. E fazem o quê? "Me dá o meu, pra mim e pra minha paroquiazinha, e voto no que vocês quiserem". Negocia. Os mais espertos enricam, outros, que não conseguem compensar sua paróquia, ficam um mandato só, desaparecem. Vendo o noticiário, a opinião publicada, parece que todo político fica rico, com a vida feita e pode mesmo se lixar pra sociedade. Pode, não. Cada 4 anos tem que correr atrás de voto. E voto custa caro, rapaz. Custa obra, benefícios, contatos demais, conchavos, discursos, atuação pra base, adulação e atendimentos aos caciquinhos paroquiais, um empreguinho aqui outro ali. São estórias impagáveis que cada cabra do baixo clero tem. Mas são eleitos. E o judiciário que não é eleito? E o STJ que nunca condenou ninguém. Devia ser STS = Supremo Tribunal de Soltura. Camarada nomeado pra lá faz mais cocô num ano do que um deputadinho do baixo clero na vida inteira. Bom, talvez haja aqui algum exagero. Mas xingar deputado é bom demais, não é? Dá boas manchetes, boas matérias, boas chamadas na tv, gera umas revoltas. Revoltar é outra coisa boa, é ou não é? O Congresso está se lixando para a Opinião Pública! É assim que ficou estampado depois do que disse o deputadinho. E tome revolta. Desde a cara de nojinho treinado dos apresentadores de TV. Mas eu acho que quem representa mesmo o voto popular é o deputado do baixo clero. Podem apedrejar (literariamente), mas acho. Ele não tem espaço na mídia corporativa que nem o Mercadante, o Suplicy, o Temer, o Sarney e mais um tanto de cobra criada. Ele só conta com sua base. Só aparece na mídia quando esmaga os bagos do politicamente correto ou se mete numa enrolada qualquer. Ele tem base. Cobra criada - os cabeças coroadas - não tem base, tem é poder eleitoral, não pedem voto em cidadezinhas, distritos, bairros. O cabra do baixo clero tem base, sim. E tem que ficar esperto senão a base se larga dele. Ele não se lixa para a sua base. Ele se lixa para a Opinião Pública, esta que conhece o Sarney, o Temer, o Mercadante. Não dá pra comparar o professor se lixando para seus alunos com o deputadinho que se lixa para a Opinião Pública. Não é assim, não, Da Matta. Ele é justamente o professor que não se lixa para os seus alunos, pelo contrário, ele é o vendedor que só se lixa para os seus clientes. Os outros são "a opinião pública". Paz e bom humor, malandragem.
Escrito por walmir às 13h59
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As emoções da gripe suína
As emoções da gripe suína Esta terrível pandemia dizimou, até agora, mais ou menos 10 pessoas. Três mil casos comprovados, 10 óbitos. Mortalidade de 0,3%.
Penso: cura-se desta gripe até sem tratamento. Desde que foi detectada a terrível pandemia, morreram mais pessoas em Belo Horizonte vítimas tropicão na rua. Tropicão mata mais do que gripe suína. Malária, que é doença de pobre, mata um milhão de viventes humanos todo ano. Mas a televisão não se cansa dela. Meu enteado ficou doidaço porque gripou depois de abraçar um amigo que chegou de Cancum. O São Paulo vai passar pra outra fase da Libertadores sem precisar jogar com time do México. Agora olha só um outro lado, noticiado pelo Washington Post domingo passado em reportagem de Steve Fainaru. Diz que lá no México, em Lá Glória, estado de Veracruz, tem umas enormíssimas lagoas e merda e mijo de porco criadas pelas Granjas Carroll de México, dona das fazendas de porcos - e subsidiária da Smithfield Foods, com sede no estado da Virgínia – e cujos dirigentes negaram-se a falar. A gripe infectou 616 pessoas por lá e aquela região virou-se no centro da crise da gripe suína. Pois o Steve contou que há anos o pessoal das comunidades onde estão as fazendas reclamam do efeito das lagoas de merda e mijo de mais de um milhão de porcos sobre os lençóis freáticos da região. Diz o Mauro Santayana – no Jornal do Brasil - que as Granjas Carroll foram expulsas da Virginia e Carolina do Norte, devido aos danos ambientais que causavam e se mudaram para o México por conta de um desses tratados de livre comércio. O povo anda protestando desde 2007. Fazem umas manifestações e a Smithfield/Carroll bota a polícia local em cima dos manifestantes, alguns são processados e tal. Um pequeno fazendeiro de 66 anos contou ao Post que foi obrigado a vender sua plantação de milho para pagar advogado. Advogado também aproveita, é ou não é? A empresa cria os porcos em pocilgas padronizadas onde os bichos se alimentam, movem-se pouco, crescem, cagam e mijam até que, bem gordinhos, são mortos e viram alimento. Nesse tempo, mijo e bosta seguem para lagoas a céu aberto do tamanho de dois campos de futebol. A empresa diz que não vazam de jeito nenhum, mas o povo de lá contesta. Queixam-se há anos de doenças de pele, inflamação de garganta e outras pragas. As “lagoas” soltam um fedozão que faz as pessoas se sentirem tão mal que nem dão conta comer. Dezesseis fazendas da empresa produzem, de acordo com ela mesma, um milhão e 200 mil porcos por ano. E o negócio dá bom dinheiro porque, do dia pra noite, pode surgir uma nova fazenda perto das casas de moradores da região. O fazendeiro Fausto Limón, plantador de soja e milho, contou: “Nunca pensamos que iriam criar uma aqui perto, mas vieram. Então demos de vomitar, ter dores de cabeça, lacrimejar. Tivemos de sair à procura de outro lugar, longe daquele mau cheiro”. E vem a praga dos cachorros que comem os restos de porcos mortos perto dos abatedouros. Fico lembrando do antigo Matadouro Municipal de Belo Horizonte, extinto há muitos anos e que deu nome ao bairro onde estava. O mau cheiro, urubus, cachorros. Eram cenas da Idade Média, rapaz. Segundo o Post “as autoridades de saúde não encontraram conexão entre as granjas de criação de porcos e a gripe suína”. Nunca encontram. A Organização Mundial da Saúde – pode que por pressão das multinacionais de carne suína – mudou o nome da terrível pandemia. Gripe A, em vez de gripe suína. Diz que um prefeito da região atingida pelas lagoas disse que “Para desfazer o mito, ou mesmo para reconhecê-lo como realidade, precisamos de mais estudos”. Pouca vergonha, não é? Eu só não entendo por que essa terrível pandemia que dizima menos que tropicão tem tanto espaço na mídia corporativa. fonte:Carta Maior http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15984
Escrito por walmir às 13h42
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A MENINA INOCENTE
A MENINA INOCENTE Chama-se ... tem, talvez, cinco anos. Seis? Estava saudosa do pai hospitalizado cuidando de um câncer. Tem ele, segundo os médicos, pouco tempo para continuar entre os viventes. Preferiu, depois de conversar com a esposa e com os amigos, passar esse pouco tempo em casa, na companhia deles, em especial da filha. Moram todos num povoado de 300 almas. Chama-se Noiva do Cordeiro o povoado. A menina ficou exultante com a volta do pai e contou para um visitante: “Meu pai chegou todo chic. De ambulância.” E frisou bem a palavra ambulância. Das Montanhas: Dispunha as mãos em concha ao redor dos lábios entreabertos, provocava o movimento da laringe e o som escorria pelos ares: - Olá a a a.............. A resposta vinha como um eco da montanha vizinha: - Olá a a a ... O dia havia começado. Muitos anos viviam tão próximos e tão distantes. Cada qual protegido e isolado em um espaço próprio. [leia tudo em http://adelia.carvalho.zip.net/]
Escrito por walmir às 19h59
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VALE COMETE GROSSA INJUSTIÇA
VALE COMETE GROSSA INJUSTIÇA I Em ação incompreensível a Vale retirou o canal de satélite que permitia à comunidade Noiva do Cordeiro ter acesso à internet. Noiva do Cordeiro é o melhor exemplo de comunidade que eu conheço. Há uma comunidade socialista no interior de Minas Gerais. Chama-se Noiva do Cordeiro. No fim do século XIX, a jovem Maria Senhorinha de Lima, nascida no povoado de Roças Novas, distrito de Belo Vale, casou com um descendente de franceses, Arthur Pierre. Infeliz no casamento, deixou o marido e foi morar com o moço Chico Fernandes no local onde acabou sendo criada a comunidade. Aquela atitude deixou a população escandalizada e os poderes públicos e religiosos irados. Que direito tinha aquela mulher de abandonar o marido e juntar-se ao homem que amava e amou por toda a vida? E veio a revanche, a vingança. Padre Jacinto – santo homem como era conhecido – excomungou-a e à sua descendência até a quarta geração. Com a excomunhão veio a difamação. Mesmo quando visitava os parentes, Chico Fernandes não podia dormir dentro da casa deles, era obrigado a dormir no paiol. Era um adúltero também. Ainda assim, o casal seguiu sua vida, gerou filhos e filhos, fizeram larga descendência, e a comunidade cresceu. Cresceu, mas o preconceito e o isolamento também cresceram junto. As mulheres, quando iam à cidade de Belo Vale, sede do distrito, eram chamadas de prostitutas. As crianças podiam freqüentar a escola, mas eram apartadas do convívio com outras crianças, ninguém falava com elas, de modo que muitas deixaram de se formar. Por volta dos anos 1940, o pastor Anísio Pereira se apaixonou por uma das netas de Maria Senhorinha, a jovem Delina, casou-se com ela fundou a Igreja Evangélica Noiva de Cordeiro, que deu o nome do lugar. Os preceitos dessa Igreja eram duros, restritivos, as mulheres não podiam usar maquiagem, não podiam cortar os cabelos, controlar a natalidade, música era proibida, tinham que usar vestidos compridos. E havia o jejum. Obrigatório. Dois dias inteiros por semana. E uma hora de oração matinal todos os dias. Aquilo prejudicava o trabalho. Apartados da fé católica, o preconceito crescia contra eles na cidade de Belo Vale e nos povoados vizinhos. Difícil para os homens conseguirem trabalho, ainda mais que eram limitados pelos dois dias semanais de jejum. Foi uma época longa de duras privações. As mulheres da comunidade começaram a perceber que a Igreja não trazia tantos benefícios e que, pelo contrário, dificultava a vida e o sustento e, aos poucos, se afastavam dela. Então uma das filhas de Delina e do pastor Anísio casou-se. Para a festa do casamento exigiu música. Bateu o pé, queria porque queria. Foi contratado um sanfoneiro. Crianças que nunca tinham ouvido música na vida gostaram. Dançaram. Todos entraram naquele forrozinho. A partir daí, a igreja definhou, até que foi derrubada; no seu lugar ergueram o bar da comunidade onde se reuniam para cantar, dançar, para se divertir. Simbólico - no lugar da igreja opressora um espaço de convivência e alegrias.
Escrito por walmir às 12h33
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VALE COMETE GROSSA INJUSTIÇA II
VALE COMETE GROSSA INJUSTIÇA II Em ação incompreensível a Vale retirou o canal de satélite que permitia à comunidade Noiva do Cordeiro ter acesso à internet. Noiva do Cordeiro é o melhor exemplo de comunidade que eu conheço. Excomungadas pela igreja católica derrubaram a igreja evangélica e passaram a viver uma vida sem religião – mas com muita fé em Deus -, sem dogmas e sem formalidades. Namoram, casam. Se uma jovem quer casar-se com véu e grinalda eles organizam tudo. Um veste-se de padre, outros fazem papel de padrinhos, encenam o casamento. Se não, há uma cerimônia em que falam os pais, os amigos, os noivos e estão casados. Se não querem mais continuar casados, separam-se. “Aqui nunca houve traição”, me conta o Iran. Pelo domingo, à tarde, fizeram brincadeira de “como é a música”. O Celso cantava a música e em certo momento parava. Era auxiliado por outro rapaz que ia passando as páginas onde estavam escritas as letras das músicas. Aí um grupo tinha de continuar, dizendo pelo menos uma seqüência exata de sete palavras que completavam a letra da música. Um grupo competia com outro. Pois o Celso, o que cantava – e têm bom equipamento de som – vai se casar com a Taninha. E o rapaz que o auxiliava fora casado com Taninha. Tivera com ela um garoto espoleta, o Marco Antônio, agora com oito anos. E todos se dando muito bem. Onde uma coisa assim pode acontecer com naturalidade? Não sei de nenhum outro, a não ser lá. Delina me disse: “Professor, aqui nunca tem discussão, não é briga não, discussão”. E penso que não tem mesmo. Nos dias que passei lá não ouvi um palavrão, uma palavra ríspida. Pode parecer que exagero, eu mesmo, muitas vezes duvido do que vi. “Será que encenaram para mim?”. “Não é possível”, penso depois. Cheguei lá de supetão, sem convite e, num instante estava à mesa com eles almoçando, um quarto preparado pra eu descansar, as conversas. Uma naturalidade estarrecedora. Há inúmeros bebês, acredito que uns oito. Eu não conseguia saber quem era filho de quem. Todos cuidavam de todos. Só perguntando pra saber. E tanto quanto as mulheres os homens cuidam deles. Vão passando de mão em mão. Não choram. Minha mulher falou: “Acho que esses meninos são mudos. Eles não choram, não?” Voltando: Esta vida desligada dos dogmas das igrejas – e ainda assim profundamente religiosa - dificultou a integração com os outros povoados, com a sede do município. As mulheres eram consideradas prostitutas, mulheres perdidas, submetidas a constantes humilhações. Os homens casados com elas eram criticados, voltavam para casa humilhados, às vezes furiosos.
Escrito por walmir às 12h32
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