ESPERANDO
Mirrel carregava um tubo de acondicionar desenhos em papel vegetal e uma pasta de projetos. Sentou-se. Ficou quieto um instante e, a contragosto, abriu os projetos sobre a mesa.
Fazia frio. Domingo sem sol, nublado.
A noite anterior fora marcada por cerrada discussão com a mãe, de modo que preferiu ficar, fazer alguma coisa, manter-se perto dela. Melhor estragar o domingo que estragar a semana inteira em busca de perdão.
Colocou a calculadora de lado, régua, pegou a lapiseira e afiou o grafite, inclinou-se para uns cálculos.
Deinha, que olhava da porta, aproximou-se da mesa devagar, quase sonolenta; olhou, observou o irmão trabalhar, perguntou: “ O que é isso?”
Ele estranhou a pergunta; Deinha andava casmurra, há quanto tempo não sabia. “Projeto de manutenção corretiva da usina de Jaguara”, respondeu.
“É?”
“É.”
“Ah.” Não tinha mais nada em mente para conversar ou, tivesse, faltava coragem. Abriu a apostila do cursinho e resignou-se a estudá-la. Nesse momento entrou Maria Tereza. Vinha da missa e da padaria. Trazia um embrulho de pão.
Olhou para os filhos. Olharam.
Mirrel não podia falar com a mãe, ela proibira quando soube dos planos dele de mudar-se para a Austrália - aquela noite anterior arruinada. Deinha falou:“Onde é que a senhora foi, mãe?”
“Fui à missa.”
Deinha mudou-se para o sofá e afundou o rosto na leitura.
“Antes não tivesse ido. Tem dia que a gente quer melhorar e acaba piorando.”
Maria Tereza estava ansiosa, angustiada com o que tinha por falar e os filhos nada perguntavam.
“Sabe a Cotinha?” falou por fim, sem receber nenhuma resposta, “Está grávida”, e o silêncio persistiu, “A menina tem a sua idade. Dezoito anos.”
“Tanta gente tem dezoito anos, mãe.”
“Absurdo, Deinha.”
“Vai ver ela quis.”
“Quis como? Solteira? Mãe solteira? Como é que ela vai criar esse filho?”
“Criando, uai.”
“Criando? Na casa da mãe, não é? Você acha que a mãe tem obrigação de criar neto? Faz isso porque o pai dela já morreu, coitado, senão pensava duas vezes.”
“Ela pode ter a casa dela, trabalhar, sei lá.”
“Pode nada, menina. Que bobagem é essa? Como é que cria filho sozinha? Arranja emprego? Está aí o Mirrel, olha. Formado. Homem. Arranjou emprego?”
“Tá trabalhando, né, mãe?”
“Estou falando de emprego, fichado, igual seu pai. Arranjou? Agora mulher e grávida? Nem de empregada doméstica. Ninguém quer.”
“Ih, mãe. Calma, né? Não horroriza. Parece que nenhuma mulher ficou grávida até hoje aqui em Santa Tereza.”
Deu preguiça de brigar, mudou de estratégia. “Coitada da Maristela, a mãe. A mãe."
Riu-se.
Ficou séria.
"Criou os filhos com tanta dedicação. Uma mulher tão boa...” e suspirou acintosa. “Não sei pra que eu fui à missa... ficar sabendo de uma coisa dessas. Cada um com sua cruz.”
Não ouviu resposta e, com a prática de muitos anos exercida nos certames de desaforos e acertos familiares, deu o caso por encerrado. “O pão tá quentinho. Vou deixar lá na cozinha.”
Deinha pegou da mão dela o embrulho e sumiu cozinha adentro, o cheiro de pão quentinho aniquilando sua vontade de manter-se longe de coisas que engordam.
Mirrel, agora que estava só com a mãe, aguardou o primeiro contato depois daquela briga horrorosa em que se afundaram na noite anterior.
Percebia o olho dela queimando suas costas.
Esperasse.
Escrito por walmir às 19h48
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SABEDORIA ANÔNIMA, 2008
PARA SER POPULAR É NECESSÁRIO SER UMA MEDIOCRIDADE
1º Todas asgrandes idéias são perigosas.
2º Dê uma máscara a um homem e ele te dirá a verdade.
3º Trabalho é o refúgio dos que não têm nada para fazer.
4º Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas.
6º (uma abstrata) Tempo é desperdício de dinheiro.
VIVER É A COISA MAIS RARA DO MUNDO; A MAIORIA DAS PESSOAS NÃO FAZ MAIS DO QUE EXISTIR.
8º O dever é o que esperamos do comportamento dos outros.
9º Uma coisa não é necessariamente verdadeira só porque um homem dá a vida por ela.
10º Certas criaturas têm a mania de dar bons conselhos precisando tanto deles para si... É o que chamo de cúmulo da generosidade.
11º Meus gostos são simples: prefiro o melhor de tudo.
12º A verdade não é complexa, nós é que somos.
13º Nunca deixe de perdoar seus inimigos, nada os aborrece mais.
VIVA DEPRESSA / MORRA JOVEM / E SEJA UM CADÁVER ATRAENTE.
15º Experiência é o nome que se dá aos nossos próprios erros.
16º A caridade cria uma multidão de pecados.
17º O cinismo consiste em ver as coisas como elas são, não como deveriam ser.
18º Se alguém diz a verdade?Pode estar certo de que será descoberto mais cedo ou mais tarde.
19º O velho acredita em tudo; o homem maduro duvida de tudo e o jovem acha que sabe de tudo.
20º Não sou jovem o suficiente para saber de tudo.
21º O maior castigo que o destino aplica ao homem casado é ver que sua mulher sempre acaba por se parecer com sua sogra.
(EXTRAÍDO DA REVISTA NONADA - DIRETORIA DE ARTE E CULTURA DA PUC MINAS)
Escrito por walmir às 12h30
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100 ANOS DE JOÃO GUIMARÃES ROSA - Tutaméia
Uma anedota é como um fósforo, deflagrado, foi-se a serventia.
Bebo para impor em mim amores dos outros?
Cego suplica de ver mais do que quem vê.
Cidade grande, o povo lá é infinito.
A alegria de Deus anda vestida de amargura.
Deus é curvo e lento.
O gênio é o punhal de que não se vê o cabo.
Felicidade se acha só em horinhas de descuido.
Mas o mundo não é remexer de Deus?
Olhos põem as coisas no cabimento.
Todos toleram na gente só os dissabores do diário e pouco sal no feijão.
E o que não digo, meço palavra.
As coisas só me espantam de véspera.
Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Esperar é reconhecer-se incompleto.
O trágico não vem a conta-gôtas.
Haja o absoluto amar e qualquer cause se irrefuta.
O real e válido, na árvore, é reta que vai para cima.
A gente tem de temer a gente.
Meu gosto agora é ser feliz, em uso, no sofrer e no regalo.
Tudo o que é bom faz mal e bem.
O contrário da idéixa fixa é a idéia solta.
Infelicidade é questão de prefixo.
Fé é o que abre no habitual da gente uma invenção.
O segredo circula, quanto mais secreto?
(extraído de Nonada, nº 7 - janeiro, fevereiro e março de 2008)
Escrito por walmir às 20h30
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MEMÓRIA
Ao saber que o filho Mirrel pretendia ir para a Austrália, Maria Tereza - Maitê - só conseguiu uns remansos de calma quando se deu conta de que amara o marido, o Viana, também pelas suas pequenas coragens e humanas ingratidões que definem o caráter de cada vivente. Viana também contrariara o desejo do pai que o queria trabalhando na Bayer com ele. "Quantos anos se passaram?", perguntou-se. E agora a história se repetia.
Deitou-se.
Dormia quando Viana surgiu na memória dela? Ou sonhos tomam corpo quando se está acordado? Deixa.
Ele vestia um macacão cinza e espalhava papéis sobre a mesa, uma alegria infantil espalhada no rosto, coisa comum a todos os homens que preparam aventuras. "Olha aqui, Maria Tereza. O projeto da empresa. O Mirrel vai ficar entusiasmado." Supôs que ele queria a presença do filho e fez menção de chamá-lo. "Não. Não precisa acordar ele agora não. Quando ele acordar a gente mostra. Eu quero é que você veja." Homens costumam fazer estas declarações sem saber e Maitê lembrou-se, muito tempo depois, de como ficou emocionada com esta bobaginha acontecida dentro de um sonho. "Olha aqui no desenho, olha só: galpão com ponte rolante, oito metros de pé-direito, piso industrial." E apontava detalhes. "Ferramentaria, almoxarifado, entrada de veículos. Aqui fica a seção elétrica. Mecânica. Soldagem. Modelagem e marcenaria neste outro galpãozinho aqui fora. O escritório do Mirrel junto comigo, não fica bom?" E antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, completava: "Recepção."
Como nos sonhos - estes mitos pessoais ou alucinações aliviatórias que se misturam - Maria Tereza, ainda que enternecida por ser a primeira a conhecer o projeto, mudou de foco sem mais nem menos para a preocupação central: "Sua mãe até que se arrumou bem. Mudou móveis, trocou as cortinas, pôs fora uma porção de bugiganga. Ficou muito mais descansada."
A que ela se referia? De onde surgira esta memória? Via-se refletida na mãe de Viana quando ele deixara a casa? Não sabia. Teimosa, continuou: "Ah, é bom mesmo que os filhos saiam pra bem longe. Filho perto dá problema, Viana, e depois cada um tem que cuidar da sua vida. Quanto mais cedo desagarra de pai e mãe, melhor."
De repente, na memória-sonho de Maité, Viana começou a falar como se já soubesse que a pretensão de Mirrel não era ter uma empresa com ele, mas mudar-se para a Austrália.
Os sonhos têm qualidades furtivas, rapaz. Dão uns saltos insólitos para nos abeirar das verdadeiras preocupações.
"Eu não quero filho agarrado comigo, dependente" disse ele, "quero um sócio. Mirrel tem que parar com essa idéia de ir pra Austrália. Pra falar a verdade eu nem acredito nisso. Que bobagem. O lugar dele é aqui. Os bons técnicos estão todos indo embora.Que é isso, Maria Tereza? Não pode. Assim o país não vai pra frente. E como é que a gente vai fazer? Muda todo mundo pra Austrália? Pro Canadá? Pros Estados Unidos? Se o Tancredo não tivesse morrido o país não estava assim. Voto no Ulisses."
"Eu não condeno o Mirrel,Viana", falou dolorida, com grande esforço.
E deu-se conta, no mesmo instante que estava no meio de dois ideais e que a ambos compreendia, o do filho e o do marido. Então, dentro do próprio sonho fechou os olhos e murmurou para si mesma: "o que é que eu estou falando, meu Deus?".
E foi nesse momento, rapaz, que ouviu a voz de Viana aproximando-se, cansada, consolando-a como se compreendesse o fundo de suas dúvidas: "Eu, às vezes, vejo você falando sozinha pela casa, Maria Tereza". Ela assustou-se e ele continuou, "também eu já me peguei conversando com motor, não te contei?" Fez mais uma pausa, conformado, "o pior de ficar velho é começar a perceber essas pequenas coisas. Defeitos"
"Defeitos?", perguntou ela num fio de voz.
E afogou-se na farinha do sono.
Escrito por walmir às 16h56
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O OLHO DA SANTA
A avó, dona Tereza Najar é, antes de tudo, amorosa, dedicada aos filhos e netos, preocupa-se com todos e com cada um em particular, embora tenha certa preferência pelo neto primogênito, o Pedro, sempre agraciado com umas quitandas especiais.
Professora e diretora aposentada numa escola estadual, viúva, conta com o respeito de todos lá na cidadezinha do norte mineiro, onde deu aulas para todo vivente com menos de cinqüenta anos, acompanha a política interiorana, ama o Fernando Henrique Cardoso, detesta o Lula.
Dedica-se aos amigos, à cozinha e arrumação da casa - toda gradeada pois lá em Itambacuri a violência chegou de vez - ao bordado, às novelas da Globo, ao Cruzeiro e, sobretudo, às orações. Tem uma trinca de amigas que se reúne todos os dias - todos os dias é todos os dias mesmo, de segunda a segunda - na parte da tarde, para confiar à Virgem Maria e demais santos a intermediação dos seus pedidos a Deus.
O quarto onde rezam é amplo, tem um altarzinho com toalha rendada, velas, imagens, quadros, acredito até que água benta, além de flores e uma iluminação indireta que torna a oração mais devota.
Uma vez tive um problema ocular. Começou com uma luzinha forte como vagalume piscando dentro do meu olho direito, rodopiando. Pisquei, revirei a cabeça, sacudi. Parou de piscar a luzinha e no lugar dela surgiu uma sombra. Fui ao médico que me desalentou: "Descolamento do vítreo. Vai conviver com esta sombra pro resto da vida, rapaz." Minha mulher contou a ela. Telefonou. "Mamãe, Walmir tá ficando cego de um olho."
Pois ela juntou-se às duas amigas numa trinca em oração que durou um mês inteiro naquele quarto adornado de fé e a sombra foi embora. Um dia cheguei à porta de casa aqui em Belo Horizonte, olhei para a montanha e enxerguei ela direitinho. Meu olho ficou bom. Voltei ao consultório e falei com o médico.
"Uai" disse ele examinando, "ficou bom mesmo". Devia ter pelo menos devolvido o valor da consulta. Também não cobrei. Deixei ele com sua certeza e voltei p'ra casa com meu mistério.
Um tempo depois a casa da avó, dona Tereza Najar, encheu-se num desses feriados compridos. Foi quase toda a família.
Eu e Can, minha mulher, temos lá nossa suíte e o mesmo acontece com minha cunhada Tê, e Wilton marido dela. Mas são nove netos, oito homens e uma mulher, minha filha/enteada - a Lis - que a avó, determinou: "você, minha filha, vai dormir no quarto de orações, os meninos dormem na sala de estar e na sala de TV."
"Precisa não, vó. Eu também durmo na sala".
"Nada disso, menina, onde já se viu?"
"Eu durmo no sofá, vó, não preocupa".
Lis estava com medo de dormir no quarto de orações diante daquelas imagens, mas tinha receio de ofender contando o motivo. Tem mais de 20 anos, boa formação, publicitária. Mas medo não depende de informação, é ou não é? A avó ficou intrigada. "Por que você não quer dormir no quarto de orações?"
Lis tinha que contar. "Vó", disse ela, "eu tenho medo da santa piscar pra mim".
Depois de fitar a neta um instante, ela explodiu em fúrias: "mas que inocente você é, que santinha mais merecedora. Se p'ra mim que rezo ali todo dia, acendo vela, troco flor e limpo as imagens por mais de trinta anos a santa nunca piscou, vai piscar p'ra você por quê que nunca botou o joelho no chão? Não vai não. Sua cama já está arrumada e você vai dormir é lá mesmo".
Foi.
Deitou-se.
Passou a noite em claro.
Escrito por walmir às 01h17
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ENTENDENDO AFLIÇÕES
Quieta na sala depois de brigar com o filho, Maria Tereza – Maitê – tomava consciência de sua própria fragilidade. “O que leva uma menina feito a Deinha a ficar tão calada? ‘Oi’, ‘tchau’ é tudo que ela sabe falar. E chutar o cachorro, o pobre do Rex que Viana criou com tanto carinho. De criança ela adorava o Rex.”
Mirrel tramava mudar-se para a Austrália, tomara todas as providências sozinho. Não falou com ela.
O pai ainda não sabia e tinha planos de criar sua própria empresa com o filho.
“Fazer um pai sofrer assim. O que é que deu na cabeça desses meus filhos?”
Suspirou. Suspiro ajuda umas vezes, é igual bocejo, um jeito de se espreguiçar por dentro, e continuou pensando: “até dez minutos atrás estava tudo bem. Agora parece que o mundo saiu do trilho. A firma do Viana foi por água abaixo. O Mirrel vai pro outro lado do mundo e eu começo a achar a Deinha tão...
Interrompeu aqueles pensamentos, pois outro, de repente, tomou conta. “Uma vez minha irmã Marlene, a Leninha, assistiu uma peça de teatro, nem me lembro mais o nome. Ela me contou que a moça da peça, que era uma loura muito bonita, de olho azul, alta, um avião, dessas que todo homem baba, falou assim: ‘Eu não dou conta de ser bonita o tempo todo. Eu preciso de um dia pra ser feia feito uma bruxa.’ A Leninha me contou isso rindo, achando muita graça, mas eu fiquei tão impressionada! Como é que pode? Uma moça tão bonita a vida toda, querendo uma folga pra poder virar uma bruxa feia, descabelada, cara amassada, cheia de olheiras?”
Se alguém olhasse pra ela naquele momento veria o quanto certos sentimentos fragilizam uma pessoa. Mas ela não conseguia livrar-se deles. “Eu também não dou conta de ser dona-de-casa, de ser mãe o tempo todo. Eu preciso de um dia pra ser bonita. Enfeitar, fazer unha, fazer cabelo, pintar o rosto. pintar os olhos, vestir um vestido bonito. sair, passear, namorar. Preciso de um dia assim, senão eu não dou conta.”
Pensamentos surgem em cascata e lá estava a irmã. “Leninha, minha irmã, ria e eu quase chorei. Nunca mais me esqueci disso. Fiquei com tanta vontade de assistir essa peça... Como é que uma frase só pode ser tão verdadeira?”
De repente levantou-se, foi ao telefone, discou e aguardou.
Atenderam.
“Viana? Chama o Viana pra mim.”
Fez uma pausa para ouvir e falou em seguida, esperançosa:
“É a Maria Tereza.”
Decepcionou-se.
“Não? Ah, sei...”
Escutou.
“Na obra é longe? Então pode deixar, moço, depois eu ligo.”
Escutou de novo.
“Não. Ele vai ficar preocupado à-toa, eu sei como o Viana é, depois eu ligo, pode deixar. Agradecida, viu? Tchau.”
Ansiosa, caminhou pela sala. Por fim surgiu-lhe no rosto uma expressão matreira e ela representou uma cena hipotética, de forma muito casual.
“Mirrel quer ir pra Austrália, Viana.”
Sentiu que não foi convincente.
“E se o Mirrel fosse pra Austrália, Viana?”
Desaprovou-se.
“Toma um café... o Mirrel vai pra Austrália.”
Insegura, mudou a abordagem.
“Quando o Mirrel era pequeno gostava tanto de viajar. A gente ia pra Mar de Espanha e ele adorava. Agora quer ir pra Austrália.”
De repente ficou paralisada, em suspenso. Algo ocorrera nas colinas da memória, algo que aproximou pai e filho. Soube, de repente, que amara no marido o que agora reprovava no filho. Umas pequenas coragens que fazem o vivente ser o que é. “Lembra que o seu pai proibiu de te chamarem de Toninho porque você não quis ir trabalhar na Bayer com ele? Você lembra, Viana? Lembra quando você era moço, Viana?”
Podia dormir.
As aflições estavam postas, iriam dormir com ela, mas agora ela as entendia melhor.
Foi assim.
Escrito por walmir às 18h49
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JUNINAS
1. Tem tanta fogueira… : Inquisição.
2. Danei a faca no tronco da bananeira… : Crime ambiental.
3. O céu fica colorido com tantas estrelas e balões… : Contravenção.
4. Vi no dedo um compromisso… : Adultério.
5. Menino, segura o fole, não deixe o fole parar: Trabalho escravo.
6. Só falta uma medida provisória para acabar com a tradição em nome dos bons costumes e da correção política.
Texto do Mestre Aderaldo, mano blogueiro, que atende no seguinte endereço: http://adercego.blogsome.com/
Escrito por walmir às 19h21
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COPIADO DO BLOG DO AZENHA -http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/a-audiencia-cai-devido-a-pessoas-preconceituosas/
"A AUDIÊNCIA CAI DEVIDO A PESSOAS PRECONCEITUOSAS"
Atualizado em 17 de junho de 2008 às 12:24 | Publicado em 16 de junho de 2008 às 21:16
por Emerson Luis, no Nas Retinas, em 16 de junho de 2008
Vejam, ou melhor ouçam, a classe da colunista (?) Lucia Hippolito na CBN. Quem merece acordar pela manhã, ligar o rádio, e ouvir coisas tão absurdas nas análises desta “especialista”?
Os proprietários dos veículos conservadores não entendem porque a cada dia perdem audiência para a Internet e outros veículos alternativos. Eu explico: a audiência cai devido a pessoas preconceituosas como Lucia Hippolito.
Em seu comentário pela manhã na CBN ela simplesmente conseguiu aliar a derrota da seleção brasileira ao presidente Lula, desqualificando-o para exercer o cargo de presidente da república. Ou seja, se a seleção perdeu, a culpa é do despreparado do Lula.
É a fina flor do jornalismo de caserna. Ao acordar de mau humor numa segunda-feira, Lucia usa o microfone para exercer o preconceito de classe, como pessoa culta e preparada que é. Obviamente, não admite que um cidadão com histórico político ganhe as eleições e assuma o cargo de chefe máximo da nação.
Lucia, uma dica: 2010 está ai. Pq vc, que é uma pessoa preparada, equilibrada, culta, que tem faculdade, doutorado e mestrado não se candidata para o cargo?
Indo mais além na sua forma sabotadora de comunicação, aliada a apatia de uma das rádios mais sem criatividade que já surgiram no Brasil, Lucia ainda chama a ministra Dilma, que nem é candidata a nada, de despreparada, a roldão do presidente Lula.
Leiam o trecho citado, literalmente: “Uma das coisas que talvez o presidente Lula tenha feito mal para o país, porque as pessoas acham que podem, de repente, se candidatar presidência da República sem nunca ter feito nada. Olhe o Dunga, nunca foi técnico nem do time da esquina da rua dele. Agora já virou técnico da seleção brasileira e acha que sabe tudo. Olhe a ministra Dilma [Roussef], nunca administrou nada a não ser a Casa Civil, com esses problemas todos que ela está tendo, já acha que pode ser presidente da República. Dureza, hein?”
Literalmente foi isso que se ouviu hoje pela manhã em uma das principais redes de rádio do país, que administra uma concessão pública de radiodifusão, ou seja, do Estado. Fiquei pensando no trecho “nunca ter feito nada”, que ela usou para se referir as atividades do presidente.
Se Lucia fosse algo mais ou menos parecido com um jornalista, ela definiria exatamente o que quis dizer nestas entrelinhas. Defender direitos trabalhistas durante uma ditadura é fazer nada? Ser preso pela ditadura é fazer nada? Percorrer o país em caravana para ter base sólida e conhecimento do país é nada? Ter sido deputado constituinte é nada? Ter disputado cinco eleições com sabotagem da imprensa é nada? Ter colaborado pela redemocratização do país é nada?
Lucia, com todo o respeito que uma dama merece, quem precisa fazer alguma coisa é você, talvez um curso de cidadania em programas públicos, visitas em assentamentos de terra, a projetos de inclusão digital, aos albergues, programas de alfabetização, enfim, uma visitinha a qualquer periferia que está ai bem perto de você, para aprender que propagar preconceito de classe usando os meios de comunicação é péssimo para o país.
Escrito por walmir às 19h05
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UM SONHO DESABANDO
Quando o filho largou o telefone depois de falar com o pai ouviu um imperativo “Que é que ele queria?”, era MariaTereza – Maitê – em seus assombros de desassossego buscando coisas que pudessem causar perigos à família.
“Que eu pensasse um nome pra firma”, e nesse momento o cachorro latiu lá fora e a campainha tocou.
Mirrel foi à janela. “Rex! Deita”, e informou inexpressivo: “É o doutor Carlos Alberto.”
Tio Miguel levantou-se pressuroso, “O médico? Deixa que eu atendo. Pode deixar." E saiu ligeiro.
“Pois você está muito amarrado, menino” e gritou para o quarto um escandaloso “Deinhaaa!!!”
“Amarrado, eu? Por quê?”
“A Deinha tá no banho até agora, Don Tereza. Vai acabar com a água.” Era Lurdes fazendo-se de inspetora das águas.
Maria Tereza concordou, “Ela acaba perdendo a aula e o cursinho tá no preço que ta” e, ato contínuo voltou-se para o filho. “Não me venha com essa de desentendido. Que amarração é essa?”
“Não estou amarrando nada, mãe. Saco!”
“Está, sim. O seu pai fala na firma, você desconversa. Põe dificuldade. Pensa que eu não notei? Seu pai pode não perceber, mas eu percebo muito bem.”
“Não sou eu quem põe dificuldades é difícil mesmo, mãe. Acha que é só querer e pronto? Tem a burocracia pra registrar a empresa. Junta Comercial, contabilidade, compra de equipamento, galpão, escritório.”
“Você sabe que não é este o problema. Seu pai tem quase tudo na mão.”
“Mas tem o mercado. Mercado é política, mãe. E isso o pai não tem. A senhora acha que a gente monta a empresa e vai aparecendo empreitada assim, sem mais nem menos? Se a política não deixar não aparece nada. Ainda mais manutenção. Quase toda manutenção é pra empresa do governo, aí já viu, né?”
“Você não me engana, Mirrel.
Tio Miguel voltou abatido, “Deinhaa”
“O que é que o doutor Carlos Alberto queria com ela, Tio?”
“Não sei, Maria Tereza, quer falar com a Deinha.” E mudou de tom alteando a voz envelhecida, “Deinha, o doutor Carlos Alberto quer falar com você.” Encarou as mãos decepcionado, “Me receitou Pepsamar. Pepsamar eu mesmo me receito.” Deinha passou chispada por ele. “Me deu esse outro aqui, de amostra grátis. Diprospan injetável." Avaliou a bula e disparou “Corticóide. Acho muito perigoso corticóide.”
“O que o doutor quer com ela?”
“Tem plantão hoje à noite. Tá sem empregada. Quer que a Deinha vá cuidar da filha dele. Diz que chamou a Lurdes, mas ela não quis.”
Mirrel não perdeu a oportunidade de implicar, “Por que, Lurdes?”
“Bem que eu tô precisando de grana, mas eu detesto cuidar de criança.” E enquanto falava punha o lanche de Deinha sobre a mesa.
Inesperado, o tio interroga Mirrel: “Você aplica injeção?”
“Não. Vai na farmácia. Lá eles aplicam.” E voltou sua atenção irônica, mais uma vez, contra a empregada: “Mas você é fresca mesmo hein. Lurdes?”
“Fresco é você que não quer a empresa do seu Viana. Agora eu não gosto de olhar menino, mesmo.” E, mudando de tom, avisou: “Don Tereza, a hora da Deinha vai passar.” Mirrel ficou puto com aquela displicência arrogante enquanto tio Miguel saía para o quarto reclamando, pois como todo hipocondríaco, tinha lá seus conhecimentos medicinais: “Corticóide é um perigo. É a mesma coisa que matar passarinho com tiro de canhão.”
Deinha entrou, parou junto da mesa, seu copo de suco já estava posto, ela bebeu. Pegou um pacote de bolachas e pôs na bolsa. Pegou um grande sanduíche de presunto/queijo/pão francês que Lurdes acabara de lhe passar, pegou duas bananas e uma maçã. Todos ficaram olhando. Maria Tereza suspira.
“Você vai cuidar da menina do doutor esta noite?” e Deinha fez que sim, muda.
“Então não vá se atrasar para chegar lá. Criança é criança e o doutor Carlos Alberto é gente muito fina! Não me vá fazer passar vergonha.” De novo ela fez que sim sem emitir nenhum som.
Pronta disse “Tchau”, e saiu. Lá fora Rex, o cachorro criado por Viana latiu alegremente. Ouviu-se de Deinha um “passa” furioso e o bicho ganiu depois de levar uma tremenda pancada.
Maria Tereza reclamou: “Ultimamente o vocabulário dela se resume a 'oi', 'tchau' e 'passa'. Como é que uma mãe deve se comportar para conseguir uma entrevista com os filhos, você sabe, Mirrel?"
De supetão, largando de si um grande e pesado segredo, Mirrel falou: “Fiz inscrição para estagiar na Austrália.”
A mãe ficou abobada, “Que firma é... Austrália?!” Mirrel fez que sim num aceno breve. “Lá onde tem cangurus?” Ele confirmou de novamente raiva que pouco a pouco se acumulava no corpo inteiro da mãe. “Ali do outro lado do mundo?”
“Sem drama, mãe.”
“Claro! Então seu pai trabalhou a porra da vida toda consertando motor, cada dia num canto do mundo, agüentando encheção de saco dum merda de um patrão porque aquele doutor Agostinho é um pele de saco -, pagando escola, casa, comida, roupa, remédio, diversão e não sei mais o que para o filhinho bem formadinho, bem instruído, bem gordinho dizer tchau e se mandar pra Austrália?"
“Mãe”, ele implorou.
“Não. Fala nada não, Marco Aurélio. Fala nada, não. Eu sei que você não é propriedade particular de ninguém, que você tem direito de levar sua vida do jeito que você quiser, que... nem eu nem seu pai podemos te obrigar a nada. Sei de tudo isso. Mas uma coisa você tinha de ter feito. Tinha de ter contado tudo pro seu pai antes. Há dois, três anos atrás, sei 1á. Tinha de ter contado, quando começou a pensar e quando tomou a decisão. Assim ele não sonhava, não ficava se enganando. Mas você deu trela pra ele, achou bom, incentivou.”
O rapaz estava envergonhado, cabisbaixo, sem coragem de fita-la. “Eu não tive coragem de contar, mãe. Eu não tinha espaço. Ele não dava espaço. Nem a senhora, E depois eu só fiz a inscrição. Nem sei se vai sair.”
Maria Tereza desabou irada no sofá. “Quando ele chegar, a primeira coisa que você vai fazer é contar tudo tintim por tintim.”
“Tá, eu conto.”
“E vai pedir desculpas.”
“Ah, qualé, mãe?”
“Vai pedir, sim.”
“Peço.”
“Eu estou muito triste. E com raiva. Com vontade de te esganar e te pôr pra fora de casa.”
“Eu sei.”
“Então some da vista e só fala comigo de novo quando eu deixar.”
Ele se foi e ela ficou quieta, o coração em descompasso, incrédula ante um sonho que se desfazia.
Rapaz, tirante a imaginação do escritor, o que é que leva uma menina feito Deinha a dar pontapé num cachorro tão alegre feito o Rex?
Escrito por walmir às 21h31
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PLANOS DIVERSOS
Ouvindo aquele imperativo "desliga esse rádio", Lurdes desligou mesmo e saiu aos berros em direção aos quartos "Deinha, levanta. Tá na hora."
Tio Miguel entrou lamentoso. "Ai, minha gastrite. Tô sendo comido por dentro." Pegou um frasco de leite de magnésia na cômodo e bebeu um colherada farta. "Ai, leite de magnésia." Sentiu o remédio descendo pela goela, caçando rumo das cavidades intestinais. "Um alívio." Esfregou as mãos, agora mais animado, olhou a mesa. "Tem um leitinho aí?"
Maria Tereza pôs bolachas e desembrulhou os pães na frente do tio. "Bom dia, tio Miguel".
Lurdes gritou mais uma vez em direção ao quarto um "levanta Deinhaaaa", puxou as cobertas de Mirrel que dormia no sofá da sala, ordenando "cai fora também."
Sentada à mesa Maria Tereza perguntou ao tio Miguel que comia com gosto: "viu a última pesquisa?" .
"Vi."
Mirrel levantou-se reclamando de Lurdes. "Viu, mãe? Só matando. Porra." Espreguiçou-se. Estava de cuecas e dirigiu-se à mesa onde tio Miguel o olhou horrorizado. Queria pegar um leite com Nescau, mas a mãe deu-lhe um tapa na mão. "Se seu pai tivesse aqui você não viunha pra mesa de cuecas." Ele riu, irônico e saiu para trocar-se. "Tá legal, Maitê."
Servindo-se de biscoitos, tio Miguel justificou-se. "O médico recomendou comer de duas em duas horas."
"Deinhaaaa." O grito de Lurdes assustou Maria Tereza e o tio. "Tá na hora. Não vou chamar mais não, hein don Tereza." E voltou para a cozinha.
"Um biscoitinho, uma maçã... diminui a acidez e não deixa o estômago trabalhar sozinho."
"Ulisses tá com 4% na pesquisa. Coitado do Viana", respondeu Maria Tereza.
"Coitado do pai, por quê? O Ulisses nunca fez nada por ele". Mirrel, vestido, voltou à mesa.
"Pois eu acho muito errado votar numa pessoa por causa de um favor pessoal, cada um querendo tirar o seu."
"Eu acho muito errado é este país. Tô querendo distância. Austrália." Maria Tereza e o tio se entreolharam. "Ficar rico. Só voltar para fazer turismo."
O telefone tocou e Lurdes atendeu. "Simmm?"
Maria Tereza encrespou-se com o filho. "O seu pai tá sonhando com essa empresa. E tá contando com você. Toma juízo, menino."
Ao telefone, Lurdes se alegra, "oi, sô Viana. Tudo legal?" depois vai se encolhendo. Viana, decerto ficou danado da vida com aquela intimidade. Sem graça, Lurdes passou o telefone, "é pra senhora, don Tereza."
"Viana?", estava radiante. "Tudo bem com você?" Fechou-se "O que aconteceu? Mas o que houve, meu Deus? Então..." Escutou aflita. "Ele te desfeiteou? Você que desfeiteou ele?" Tentou conciliar. "Mas o doutor Agostinho é seu patrão, Viana. A firma é dele, deixa ele ser burro sossegado, liga não." Escutou com paciência e mudou de tom desviando a conversa. "Quando é que você volta?" mas logo impacientou-se. "Também não precisa gritar, né Viana? O doutor Agostinho faz a burrada, atrasa o serviço e eu que pago? Pensa que é só você que tem problema? Eu também tenho e muitos." Houve uma pausa e ela fez "Pois sim", escutou, negou. "Não. Não, nada não. Quando você chegar te conto. Já disse que quando você chegar... se fosse o caso eu ligava pra você." Baixou a voz. Não conseguia negar-lhe explicações. "Tá bom. É a Deinha. Chegou tarde ontem. Sei lá, não olhei. Meia noite. Tava na casa da Marilene". Mudou de tom. "Mas não pode, né Viana? Meia-noite é hora de estar em casa. Eu fico preocupada, você sabe como eu sou". De repente tornou-se briguenta. "Pode ser até na casa do Papa que eu não quero." Arrefeceu sem convencer-se. "Tá bem, a gente conversa" e mudou de assunto como se tudo, de repente estivesse muito muito bem, soltando uma risadinha cristalina. "Viu a pesquisa eleitoral hoje? Desanima não, bobo, no fim acaba melhorando." Riu de novo, debochada. "Mirrel tá, quer falar com ele? Mirrel, seu pai quer falar com você." Mirrel se move a custo, contrariado e ele acontinua "Vê se vem no sábado, Viana. Você vem? Promete? Olha que eu fico esperando mesmo, hein? Tá. Beijo procê. O Mirrel vai falar." Tapou o fone e sussurou irada "Mirrellll" para virar carinhosa de novo "ele já tá aqui pertinho, há vai falar. Tchau. Fica com Deus" Passou o telefone ao filho. O tio Miguel encostou-se à porta, comendo uma maçã. Maria Tereza juntou-se a ele e ficou observando a conversa.
"Oi, pai. Escutei mais ou menos. Brigou com o doutor Agostinho de novo? Ah, oh..." escutou com desgosto cuidadoso. "Pai, não é fácil montar um empresa assim não." E ficou ao telefone dando notícias de um projeto de manutenção da usina de Jaguara que ia desenvolver, que era coisa urgente, trabalhando com o pessoal da Cemig. Enquanto dava estas notícias Tio Miguel se orgulhava e Maria Tereza fazia cara de que ele era um fanfarrão, mas ficava feliz. Por fim ele se despediu. "Penso sim, pode deixar, Careca. Falou, Careca. Tchau, pai. Dou sim, Tchau." Desligou.
"O que é que ele queria?"
"Que eu pensasse um nome pra empresa".
Pais e filhos têm planos diferentes, rapaz, é ou não é? Se combinam demais nos objetivos, vai ver que há entremeios de muita coisa errada.
Vou contando.
Escrito por walmir às 13h39
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DIA DOS NAMORADOS
Minha amada me ama, proclama,
e nem liga p'ra minha enorme barriga.
Escrito por walmir às 21h49
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SONHOS DE NAMORADA
Sete horas da manhã, frio, ruídos vêm da cozinha e a vinheta anuncia o noticiário da Rádio Itatiaia.
Maria Tereza, ruminando ainda o atraso de Deinha escuta, desatenta, o locutor dizer que Fernando Collor lidera com 30,8% das preferências no último levantamento Data-Folha. Seguem-se outros dados que ela despreza até que uma voz feminina diz: "depois vem Ulisses Guimarães, em sétimo lugar, com 4%."
"Ulisses", ela murmurou com impaciência contida, imaginando o desgosto do marido.
Então aconteceu um milagre. Ela fez um gesto brusco e houve uma fissura que fez o som do rádio e todos os outros ruídos desapareceram.
Suspensa naquele lugar impreciso Maria Tereza lamentou um "Ai, Viana" e suspirou. "Será que as outras moças chegam em casa tão tarde? Tem gente que não liga, tem mãe que nem se importa." Incerta, tentou defender a filha - ou defender-se, pois pouco sabemos desses delírios - falando a Viana como se ele estivesse presente. "Que é isso Viana? Quantas e quantas vezes eu também cheguei tarde em casa porque você não desgrudava, não me deixava?"
Aí, rapaz, o delírio dela ganhou corpo. Já que começara a falar com o marido ausente, não sentiu empecilho em trazê-lo para perto de si. Plum. No minuto do segundo estava ao lado dele, no meio da praça de Santa Tereza, junto ao coreto. E Viana apontou para o casarão na esquina da rua Mármore com Adamina. "Ali no Sobradão da Seresta tem um retrato do Juscelino Kubitscheck. Tiraram quando ele veio dançar aqui. Vinha sempre. E já era Presidente da República, não era prefeito, não." Ela o via todo orgulhoso. "Eu estou lá, junto, no retrato. Ele dançava bem." Fez uma pausa, tornou-se sério. "Eu sonho com o Brasil do JK, Maria Tereza. Emprego. Desenvolvimento. Como ganhei dinheiro naquela época. Meu primeiro emprego. Comprei o lote da nossa casa." Repentino, tornou-se duro. "Voto no Ulisses. É juscelinista. Tá com 4%, mas vai subir. Dizem que a viúva dele vai apoiar o Collor. Não apóia nunca."
Alheia ao que ele dizia, Maria Tereza suplicou: "Como é que eu vou falar pra Deinha namorar na varanda? Varanda hoje é um lugar perdido na casa. Ninguém mais toma a fresca na rua. Hoje só tem muro." De repente não havia praça nem coreto, estava dentro de casa ouvindo o marido desabafar. "Brizola é um caudilho sem-vergonha. Nem lá no sul gostam dele. Não sei por que votam nele. Deve ser porque não tem mais ninguém. E depois eu não gosto desse negócio de mineiro ir atrás de gaúcho. Não dá certo. Não combina."
Como só acontece nos sonhos, onde o que ressalta é sempre o mais oculto, Maria Tereza revelou sua dor: "Por que a gente não pode ficar junto mais tempo, Viana? Quando você está aqui nem dor de cabeça eu tenho."
E ouviu, como resposta, o remanso pelo qual ansiava: "Eu gosto de namorar você."
"Gosta mesmo, Viana?"
"Gosto, Maria Tereza."
Ela então fechou os olhos e sentiu, por um breve momento, que Viana passava por ela e perdia-se no interior escuro da casa. Como que por encanto voltaram os ruídos e o rádio: "... Afonso Camargo com 0,5%. Estamos a seis semana do primeiro turno das eleições presidenciais."
Seus olhos ficaram molhados, "estou sonhando que estou sonhando." E gritou por cima do noticiário: "Desliga esse rádio, Lurdes."
Sonhos são isso, delírios que às vezes nos aliviam.
Vou contando.
Escrito por walmir às 21h47
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FINAL DE NOITE NUM SOBRADO EM SANTA TEREZA
Mirrel – Marco Aurélio – tinha uns vermelhos no cabelo liso e revolto, nariz reto e larga fronte e herdara um quê estabanado do pai, juntamente com humores irônicos e desafiantes.
Namorador, ambicioso e como todo jovem de sua época – final dos anos 1980 – sonhava outras terras que o Brasil só oferecia certames de curtos horizontes.
Lurdes - a bonita empregada adornada em modos suburbanos e gostos duvidosos - tinha uma queda por ele. Implicavam-se.
Depois que ela escorraçou o Boca ao telefone, Mirrel implicou.“Escuta aqui, Lurdes. Você, por acaso, tá com ciúmes da Deinha?”
“Quê?”
“Isso é a maior falta de respeito. O telefone era pra ela.” E gritou lá pra dentro: “Deiiiinhaaa!”
Lá de dentro veio a resposta, também gritada, “o que que é, pô?”
Outro grito: “Vem cá!”
Maria Tereza impacientou-se: “Vamos parar com essa zona aqui dentro da minha sala. Tem vizinhança aí querendo dormir ou vocês estão pensando que alugaram a rua?” E subiu para o quarto.
Lurdes tremeu de raiva “Cê me paga, cê vai ver.”
“Você é muito é fofoqueira, isso sim. Esta não é uma atitude correta, não. Se ela não quisesse atender, tudo bem, mas ela nem foi consultada.” E gritou de novo um “Deiinhaaa” imperativo.
A irmã entrou com cara de poucos amigos “Ahn?”
“O Boca acabou de telefonar e essa aí disse que você já estava dormindo, que aqui ninguém gosta dele, pra ele se mancar.”
“Foi mesmo, Lurdes?”
Lurdes fez que sim com a cabeça, temerosa, envergonhada.
Deinha se abriu em satisfações: “Legal. Tô a fim de ver aquele xarope longe de mim. Valeu.” E saiu para seus afazeres silenciosos deixando o irmão boquiaberto.
Lurdes aproximou-se dele, ameaçadora, “Tá vendo?” E caiu de tapas nele, “Bundão! Sacana! Toma!”
Maria Tereza entrou correndo, assustada, deu com a briga. “Parem com isso!” Lurdes, surpresa, baixou a cabeça. “Tão pensando o quê?” E olhou a empregada que, cabisbaixa, se retirava.
Restabelecida a ordem, ela deu um safanão no filho, “eu não estou gostando disso de você dormir aqui na sala.”
“O vizinho geme a noite toda. A janela dele dá pro meu quarto. Eu fico prestando atenção no gemido dele e não durmo. É por isso que eu durmo aqui na sala! Porra, que aluguel!”
Lá dos fundos veio a voz de tio Miguel, “Lurdes! Oh, Lurdes!”
Ela, surgindo à porta da sala, imitou a voz do tio com todos aqueles doloridos habituais: “Oh, Lurdes! Faz um chazinho de boldo pra mim?” E aguardou a previsível resposta do tio, que veio diversa: “Oh, Lurdes, faz um chazinho de marcela pra mim.” Ao que ela respondeu um “já vou” cansado. Depois aproximou-se de Maria Tereza e perguntou carinhosa: “Senhora vai querer alguma coisa, don Tereza?”
“Boa noite, Lurdes.”
“Boa noite”, e saiu.
Maria Tereza, sozinha na sala, ouviu o ressonar do filho no sofá, contemplou com uns respingos de alívio mais um dia terminado, refletiu.
De longe um tiroteio?
Freadas e aceleração de veículos.
Por fim o alarme de uma patrulha.
Antes de fechar a janela, espalhou pelo rosto o sinal da cruz. “Vou votar é no Brizola”, decidiu-se.
Depois eu conto mais.
Escrito por walmir às 15h03
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Escrito por walmir às 13h51
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EXPLICAÇÕES I
Maria Tereza largou o telefone em fúrias de alívio. “É ela mesma.” E Mirrel ameaçou: “Eu vou contar tudo pra ela.”
Lá de fora veio a voz irritada de Deinha: “Passa”. E o cachorro saiu ganindo depois de levar um tremendo pontapé.
Todos se sentam. Olham para a tv como se nada tivesse acontecido, forçando calmas. Menos Mirrel que caminhou casa adentro.
“Se você contar, a sua moto não sai do conserto”. A meio caminho ele estacou o passo, achou melhor não desafiar a ira materna.
A porta se abriu e Deinha entrou. Pequena como a mãe, cabelos negros lisos no rosto redondo, boca encrespada, ar de enfado. Largos quadris, pernas grossas e um pouco arqueadas que costumavam pisar duro quando a contrariavam.
Entrou sem cumprimentar ninguém. Fechou a porta com o desânimo dos adolescentes, deu alguns passos e examinou o programa na TV. “Comando da Madrugada?! Desde quando todo mundo desta casa assiste Comando da Madrugada?”
“Oi, filha” respondido por um “oi” inaudível.
“Oi, Deinha, sabe o quê?” – era Lurdes puxando conversa - “Me deu vontade, hoje. Cê tá com a blusa toda amassada, menina.”
“Ah, é?”, fez ela indiferente.
“Hum...” – sorriu cúmplice-fingida Maria Tereza – “que cabelo mais bonito. Assim que eu gosto! Bem penteado. Parece até que você acabou de se pentear.”
Ainda com a bolsa enorme entortando-a para a esquerda, não fez caso dos comentários: “Só mundo cão, hein?”
Enquanto Lurdes perguntava “Cadê seu brinco, Deinha?”, Mirrel retornou à sala e sorriu com aquele insolência irônica que prenuncia denúncias. Maria Tereza, atenta, fez ameaças mímicas sem que a filha percebesse.
Deinha procurou os brincos na orelha e só encontrou um, enfiou a mão na bolsa, “Ah... oh! Tá na bolsa. Tinha esquecido.”
“Hoje você saiu mesmo parecendo uma senhora. Saia, blusa, bolsa” – comentou tio Miguel com gravames de malícia.
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